Acho que foi em 1993

Crônica publicada hoje n’O Popular.

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Vi Caminhos Perigosos pela primeira vez aos treze anos. Não foi o primeiro filme de Martin Scorsese a que assisti. Antes, vira Touro Indomável (sobre o qual escrevi em novembro do ano passado neste espaço), mas então nada sabia do diretor; tinha oito anos e ficara surpreso que exibissem um filme em preto-e-branco no horário nobre e mais ainda ao constatar que não se tratava de uma velharia.

Anos depois, vi Os Bons Companheiros. Àquela altura, municiado pelos guias de vídeo comprados em bancas de jornal (lembram disso?), aprendera a identificar os diretores. Decorava nomes e filmografias. Garimpava fitas de VHS pirateadas na única videolocadora que então havia na cidade, Silvânia. Lembrei-me de Touro Indomável e quis revê-lo, mas a pequena locadora (que funcionava na garagem da casa de um bancário) não dispunha de uma cópia. Levei Os Bons Companheiros. Ainda me lembro do meu irmão deixando a sala, enojado com a brutalidade da cena de abertura. Para que isso?, ele perguntava. Era violentíssimo, sim, mas não havia sentido em procurar justificativas no vácuo moral que a história pressupunha e apresentava, sem rodeios. A descarga elétrica se prolongava por quase duas horas e meia. Sem moralismos, sem catarse. A história de um pé-rapado. Ladrão, cúmplice de assassinato, traficante, viciado e, por fim, dedo-duro. Eu nunca vira nada igual. Eu não queria ver mais nada.

Acho que foi em 1993, e aquele foi um ano bom.

Exibiram A Última Tentação de Cristo na TV aberta, legendado. Foi a vez de meu pai ficar enojado. Esse filme não é certo, disse. Mas, felizmente, não me proibiu de vê-lo. Gravei e revi inúmeras vezes.

A primeira coisa que me apaixonou nesses filmes: a movimentação da câmera. Ela não só dirigia o olhar, mas chamava a atenção para o fato de dirigir o olhar. Comecei a prestar atenção nessas coisas. A câmera desvela o mundo. É um modo de recortá-lo. Quando bem utilizada, não há espaço para gratuidades: o plano diz a que veio; a concatenação dos planos estabelece significados; o filme se escreve assim, e é preciso ler. Prendia a respiração com os travellings. Eu me arrepiava com o plano-sequência em que o protagonista adentrava o restaurante pela cozinha ao som de Then he kissed me, das Crystals. Era vertiginoso.

Houve também Depois de Horas e, enfim, Touro Indomável. As madrugadas televisivas eram uma pausa no mundo. Esperava que meus pais fossem dormir e então corria à sala. O volume não muito alto. As luzes desligadas. Em uma noite dessas, vi Caminhos Perigosos.

O sujeito caminha pela igreja. A câmera o acompanha. O som de uma sirene ricocheteia na banda sonora. Ele conversa com D’us, fala do inferno, do medo de queimar. Então, deixa a mão sobre uma vela acesa. A expiação não vem como ele espera, contudo. O amigo irresponsável o arrasta. Há coisas inaceitáveis. Identifiquei Scorsese, muito jovem, sem barba, com a arma na mão. O tiro no pescoço é particularmente aflitivo. E a mão atravessada no para-brisa. O sujeito se ajoelha no asfalto. Parece ter compreendido.

A precariedade dos recursos sublinha a precariedade daquele meio de vida. É um filme barato, pequeno. Aquele é um meio de vida barato, pequeno. Eu estava descobrindo Fellini e havia ali algo de Os Boas-Vidas. Scorsese olhava para o que estava próximo. Falava do que vira. Mas o que estava próximo machucava. Talvez por isso Caminhos Perigosos me parecesse tão bom.  A memória queima, mas – é incontornável – cedo ou tarde deitamos a mão sobre ela.