A ambiguidade do fogo

Silence1

Martin Scorsese, que flertou seriamente com a possibilidade de se tornar padre antes de optar pela carreira de cineasta, levou décadas para viabilizar sua adaptação do romance Silêncio, de Shusaku Endo. É um filme no qual ele volta a (se) debater (diante de) questões teológicas de primeira ordem — inclusive no que, mal comparando, tal expressão remete a um tipo específico de construção lógica, em que D’us seria o axioma e todo o resto poderia ser visto como uma sequência dedutível (mas jamais deduzível) d’Ele, incluindo Cristo e o conceito de sacrifício. Silêncio é um filme difícil, pois coloca questões espinhosas para as quais é materialmente impossível chegar a uma resposta clara e inequívoca, mas as recompensas que oferece são enormes.

É sempre bom lembrar que o catolicismo é algo presente na obra de Scorsese desde o princípio, sobretudo em filmes que podem ser encarados como parábolas morais sobre pecado, punição e redenção, como os estupendos Caminhos Perigosos, Taxi Driver e Touro Indomável, mas foi em A Última Tentação de Cristo que o diretor (se) colocou diretamente (em) um atormentado questionamento acerca do paradoxo que Nikos Kazantzakis (autor do romance que inspirou aquele filme) chama de “essência dual de Cristo”, “o fervor tão humano, tão sobre-humano de chegar a Deus — ou mais precisamente: de voltar a Deus e identificar-se com ele”, uma espécie de “nostalgia” inscrita na carne de Jesus (e de todos aqueles que sinceramente o seguiram, incluindo os padres de Silêncio) e que emana desde o Espírito. É um chamado, uma convocação (para usar um termo de ecos heideggerianos) à qual também procuram responder os padres que, no século XVII, arriscando suas vidas, lançaram-se ao Japão para, lá, manter viva a Igreja.

O choque político-cultural está na superfície de Silêncio, mas seu interior diz respeito a questões mais graves e, portanto, perenes. Fosse o caso de “apenas” expôr a perseguição religiosa per se e os ruídos pretensamente civilizacionais que, irônica e desgraçadamente, ensejam, eles próprios, a barbárie, Scorsese não precisaria ir ao extremo oriente, pois teria um prato cheio na Europa inquisitorial do mesmo período ou mesmo nos EUA (vide certos aspectos nada marginais de O Novo Mundo, obra-prima de Terrence Malick). A exemplo do que já fizera no muito subestimado Kundun, filme que agora forma com A Última Tentação e este Silêncio uma trilogia consequente de perquirição religiosa, Scorsese reconstitui, sim, um contexto turbulento, de repressão e morticínio, mirando, contudo, uma investigação da permanência possível de um motivo ulterior, para além do sofrimento (sacrificial ou gratuito), ou mesmo apesar dele, e não obstante o reiterado silêncio de D’us.

Conforme explicitei acima, são questões espinhosas, sobre as quais é impossível ou mesmo inútil aduzir uma discussão de caráter positivo em sua acepção mais pura, mas que moldaram muito do que a nossa realidade foi e é. E, por mais tentador que seja desviar o foco de Silêncio para a superfície, é imprescindível ter em mente o background de seu diretor e a natureza primeira da angústia que o anima. Não há respostas fáceis para os dilemas enfrentados por seus personagens. Muitos dirão: não há respostas, pelo menos não do tipo que, em geral, esperamos. E eu digo: a questão é justamente essa.

A questão: em vez de se contrapor ao silêncio de D’us, colocar-se nele (silêncio). Dizendo de outro modo: em vez de pedir ou exigir d’Ele um sinal, tornar-se, pelas próprias ações e pelo próprio silêncio, o sinal. E ainda: em vez de buscar, seja por vaidade, seja por orgulho, seja pelo que for, uma identificação pedestre com o sacrifício de Cristo, compreender que este já se deu e a sua repetição, longe de santificar, conspurca e irracionaliza o sentido primeiro daquela Morte, sentido que deve ser compreendido mesmo por aqueles (como eu) que não são cristãos. Note-se que, no filme, o desconcerto do inquisidor japonês diz respeito menos aos dogmas católicos do que à teimosia em se deixar sacrificar por algo que até ele entende como espúrio, coisa que, depois, o “apóstata” Ferreira explicará didaticamente ao seu colega.

Nesse ponto, gostaria de sublinhar que D’us só se presentifica, ali, quando é mais do que patente a sua ausência. E o que dizer, então, de Sua voz? Parece-me evidente que ela só é ouvida no momento em que se torna imprescindível o silêncio de Rodrigues. D’us “fala” para que o homem se cale. D’us fala para que o padre afinal se renda e, mesmo julgando salvar os outros, salve a si mesmo. D’us fala para salvar o sentido do sacrifício, para restituir sua pureza original. E é por isso que Rodrigues se fecha, aceitando a condição imposta pelos opressores. Ele afinal parece compreender que a Palavra só é efetiva a partir do momento em que se coloca não contra, mas conforme o silêncio de D’us.

Identificar-se com D’us, ou crer que se está a fazê-lo, é fácil. Exigir d’Ele que quebre o silêncio é fácil. Discorrer sobre quaisquer promessas de mundo ulterior também é fácil, bem como colorir escatologias, ministrar sacramentos, dizer “Deus” e “Paraíso”. Difícil, e não raro impossível, é preencher a ausência de D’us com o outro, e compreender que o silêncio d’Aquele é uma convocação para que, no momento oportuno, também nos calemos.

Silêncio, irretocável do começo ao fim, desvela tudo isso com um cuidado que, em mim, inspira devoção. O caminho que ele traça é tortuoso, incerto, ambíguo. No que diz respeito às questões colocadas, cada pessoa atentará (ou não) para elas e reagirá a seu modo. Afinal, como vemos na imagem que encerra o filme, a luz que ilumina o crucifixo na mão do padre emana do mesmo fogo que o queimará.