Algumas notas sobre “Sniper Americano”

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::: Alguns dos melhores filmes da última década tratam das recentes incursões militares norte-americanas no Oriente Médio. Cito alguns exemplos a seguir.

::: Com Redacted, Brian DePalma construiu uma reflexão atroz sobre a guerra, sobre as imagens da guerra e sobre a relação que temos com essas imagens. Kathryn Bigelow, por sua vez, colocou sua câmera na altura do chão e nos deu uma bela metáfora da Guerra do Iraque — em Guerra ao Terror, temos um especialista viciado não em (ou na adrenalina de) desarmar bombas, o que parece ser o caso, mas em adiar as explosões que, cedo ou tarde, literal e figurativamente, vieram e continuam vindo. Em Zona Verde, Paul Greengrass perpetra a autópsia da mentira que levou os EUA à invasão do Iraque e, ao mesmo tempo, sem prejuízo do teor político, faz um tremendo filme de ação. Bigelow voltou à carga para fazer o melhor filme dessa leva, A Hora Mais Escura, em que a caçada a Osama Bin Laden é destrinchada em detalhes, num filme sombrio e anticlimático (escrevi sobre ele AQUI e AQUI).

::: Agora, é a vez de Clint Eastwood se jogar na tempestade de areia com Sniper Americano. Baseado numa história real, é o melhor trabalho do diretor desde Gran Torino. O filme não tem gorduras.

::: Cinematograficamente falando, Eastwood se apropria de um certo olhar estabelecido sobre essa guerra (tudo já nos é muito familiar, as cores, os sons, a poeira, o desenho urbano, a disposição militar, as feições e vozes inimigas etc.) e o desestabiliza desde a cena de abertura.

::: A questão não é tanto a guerra em si, embora ela aqui e ali seja discutida (sobretudo visualmente, e contradizendo o que às vezes é dito), mas a jornada tortuosa do protagonista rumo à auto-obliteração metafórica, simbolizada pelo sniper inimigo. Ele precisa “morrer” para viver — e morrer.

::: Responsável por dois grandes filmes sobre a Segunda Guerra (um dos quais, Cartas de Iwo Jima, é uma obra-prima), e não obstante o clímax estupendo desse Sniper Americano, Eastwood parece, aqui, menos interessado na mecânica da guerra (ainda que ela seja reconstituída com precisão, quando necessário) e mais preocupado em, com alguma discrição, estabelecer o jogo de sombras que, aos poucos, envolve e redefine o protagonista.

::: Não que o filme ofereça “momentos de iluminação” ou coisa parecida. É a história de um soldado que, para sobreviver em um teatro de operações crescentemente caótico, deve trucidar aquilo que, do lado inimigo, lhe é mais próximo ou similar. E, depois, cumprida a missão, procura aos poucos restituir a si mesmo o que o embate mastigou. O curioso é que, nesse processo, ele não se distancia do que viveu. Ao ajudar outros veteranos, o que parece acontecer é uma reaproximação racionalizada e distanciada (eles fazem troça, por exemplo) da guerra. As lembranças são compartilhadas no intuito mesmo de conferir algum sentido não à guerra em si, ou àquela guerra específica, mas à vida que se segue à guerra. É um distanciamento que, por exemplo, o protagonista de Guerra ao Terror não alcança.

::: O destino do personagem é tão mais chocante por isso. Ele é vítima daquilo que o resgatou para o convívio familiar. Ou, por outra, é vitimado pelo derradeiro esforço da guerra para alcançá-lo. Pelos estilhaços. E, num certo sentido, mais amplo, do cinema como instrumento reflexivo, filmes como Sniper Americano e A Hora Mais Escura estão, cada qual à sua maneira, lidando com tais estilhaços ou, antes, descrevendo a sua trajetória e, com isso, discorrendo sobre um país que tateia no escuro, procurando pela perna que foi arrancada.