Algumas notas sobre “Acima das nuvens”

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Acima das Nuvens flerta com Persona, de Ingmar Bergman, mas é um flerte tão superficial que talvez nem valesse a pena mencioná-lo. O filme de Olivier Assayas vai noutras direções, e é o melhor dentre os que vi do cineasta.

Juliette Binoche interpreta uma atriz que se depara com um desafio: voltar à peça que a consagrou décadas atrás, mas no papel da antagonista, uma mulher de meia-idade seduzida e canibalizada por uma jovem arrivista (que ela interpretara antes). A decisão não é simples. A mera realocação de papéis assinala a passagem do tempo.

Ela se refugia com a assistente (Kristen Stewart) nos alpes suíços, na casa onde vivia o dramaturgo (que se matou há pouco), e luta contra a nova personagem no decorrer das leituras e ensaios improvisados. Ao mesmo tempo, a relação entre as duas mulheres vai se esboroando.

Também o esboroamento remete à passagem do tempo, às diferenças geracionais. Binoche não compreende o mundo em que Stewart vive, o cinema que ela aprecia e as coisas que retira de ambos. O conflito é incrementado com a entrada em cena da atriz (Chloë Grace Moretz) que fará o seu antigo papel na peça: norte-americana, tresloucada, estrela de filmes de super-heróis e dos tabloides, envolvida com um jovem romancista casado etc. etc. etc.

Alijada de seu velho mundo, morto & enterrado há muito, Binoche se vê atirada num pouco admirável novo mundo que lhe parece instável, violento, superficial. A cena em que ela, o (jovem) diretor da peça, a estrelinha americana e seu bibelô precisam mudar de restaurante para fugir dos paparazzi resume à perfeição o zurrante século XXI e sua fome pelas vísceras alheias. É uma situação patética, explorada com precisão por Assayas.

Por outro lado, é interessante notar como a irascibilidade da protagonista ajuda a sublinhar o seu próprio abastardamento. Ela hostiliza Stewart passivo-agressivamente, só dialoga com Moretz enquanto ouve elogios gratuitos e, ao final, quando recebe um jovem cineasta que lhe propõe um novo trabalho, só parece se interessar na medida em que o rapaz, avis rara, também se contrapõe aos vícios da contemporaneidade.

É importante notar que Assayas não se deixa levar por uma crítica barata à suposta superficialidade do cinemão. A discussão entre Binoche e Stewart depois de assistirem a um blockbuster (em 3D) estrelado por Moretz nos diz mais sobre a cretinice (naquele momento) da primeira do que qualquer outra coisa. Ademais, o projeto em que ela, ao final, está inclinada em embarcar é uma ficção-científica. Logo, o problema não está nesse ou naquele tipo de cinema, uma vez que todos possuem tanto vida inteligente quanto picaretagem (e concordo com Polanski quando ele diz que um blockbuster ruim é passável, ao passo que um “filme de arte” ruim é insupórtável), mas na relação, amistosa ou não, destrutiva ou não, que estabelecemos com a passagem do tempo, por um lado, e na característica dogvillesca da chamada indústria de celebridades, por outro.

Acima das nuvens se beneficia, assim, de todo tipo de ambiguidades. Moretz é uma estrela tresloucada, mas é também (ou parece ser) uma atriz de verdade. Stewart procura trafegar (e consegue, até certo ponto) entre mundos distintos e contraditórios. Binoche é atropelada por si mesma, pelo que pensava ser e pelo que querem que ela seja; dá uma volta enorme para voltar ao ponto de partida. No fim das contas, Assayas parece desenhar um círculo com seu filme. Um círculo perfeito, que nos estrangula.