Outback

rover

Pena que só tenha visto The Rover – A Caçada ontem. Por certo, estaria na cabeça da minha listinha de melhores de 2014. É o segundo longa de David Michôd (que antes nos dera o ótimo Reino Animal). Ele se volta para aquela aridez australiana, de estradas, tiros e carros, que constitui não só um gênero, mas toda uma maneira de pensar e fazer cinema, cuja raiz estaria na década de 1970, com o Ozploitation e a “nova onda australiana”, de filmes como Walkabout (Nicolas Roeg, 1971), Wake in Fright (Ted Kotcheff, 1971, baseado num puta romance de Kenneth Cook), Long Weekend (Colin Eggleston, 1978) e, claro, o estupendo Mad Max (George Miller, 1979).

Um fiapo de história nos arrasta pelo outback enquanto um sujeito (Guy Pearce) persegue um trio de assaltantes que, em fuga, lhe rouba o carro. No trajeto, depara-se com o irmão (Robert Pattinson) de um dos ladrões, deixado para trás pelos comparsas, que o julgaram morto. A caçada cria uma aliança improvável entre esses dois. A importância do carro para o perseguidor só é esclarecida no epílogo, e, não sei vocês, mas eu achei a coisa toda justificadíssima. A gente se agarra ao (pouco) (nada) que tem.

Não é um detalhe menor o fato de que o mundo colapsou. Michôd cria, assim, uma aventura pós-apocalíptica que, em momento algum, explica como as coisas foram pro saco. Até porque isso (a “explicação”) não tem a menor importância para a narrativa, na forma como ela se desenrola. O papo do protagonista com um soldado, a certa altura, é um exemplo perfeito dessa economia criativa: é a única vez em que sabemos algo do personagem, mas o que ele nos conta, dado o contexto, diz mais respeito ao outro em sua “normalidade”, até porque a “normalidade” fora suprimida, extinta.

Ele está solto num mundo em que as ações mais terríveis não têm quaisquer reverberações ou consequências exteriores. O homem está sozinho em/com seu horror. Enquanto os cadáveres se amontoam sob o céu impassível, Michôd mostra um (não) estado de coisas em que somos deixados à mercê do outro e sem quaisquer instâncias intermediárias e/ou supraindividuais. É a morte da temporalidade que se segue ao deicídio.

(Em tempo: quem quiser saber um pouco mais sobre o Ozploitation, sugiro o doc Além de Hollywood.)