Surfando no horizonte de eventos

interestelar

Ontem, assistindo a Interestelar numa sala IMAX povoada por (outros) nerds (mais ou menos) barrigudos, pensei não em Dylan Thomas, Albert Einstein ou no status deprimente do beisebol no mundo futuro e empoeirado do filme, mas no silêncio. Algo que os melhores filmes de ficção-científica (2001, o primeiro Alien, o recente Gravidade) utilizam e que tem muito a ver com a imensidão, o imponderável e o horror. O silêncio é deiforme. Mas Christopher Nolan não consegue calar a boca.

Nolan, cineasta afeito a uma picaretagem, acha que ser complexo é ser confuso e é responsável por alguns dos piores filmes do cinemão norte-americano neste início de século XXI, estando o risível A Origem e o terceiro Batman no pico desse Everest (não-)criativo. Sem entrar no mérito dos roteiros desses orcs audiovisuais, basta dizer que Nolan não sabe enquadrar e decupa como um macaco com DDA: ele é incapaz de perceber o filme como um organismo que respira e se move, investindo em planos que se sucedem, mas não conversam entre si e com o todo, imprensados pela música e, no limite, forçados por ela a estabelecer algum sentido (em geral reducionista e melodramático).

Em um planeta no qual um dia tivesse 67 horas de duração (e a noite outras 67), Interestelar talvez até fosse confundido com uma obra-prima (as pessoas vivem em cada lugar, não é mesmo?). A premissa é que a Terra está se tornando inabitável e é urgente encontrar um novo lar. Um ex-piloto, viúvo, é inadvertidamente recrutado (são dois minutos de papo para decidirem que ele é o cara, o equivalente, aqui, ao “desenha um labirinto” d’A Origem), deixa a fazenda, o sogro e o casal de filhos e parte numa expedição para, em tese, verificar a habitabilidade de três planetas, vizinhos de um buraco negro giratório (quem nunca?) e localizados a uma distância tão grande que se faz necessário o uso de um buraco de minhoca (superfaturado) para chegar lá.

Em sua canalhice melosa, o filme até flerta com a escuridão, mas se recusa a abraçá-la. É quando a coisa desanda de vez, a rapaziada surfando no horizonte de eventos do buraco negro e, eventualmente, mergulhando nele. Nolan recorre à multidimensionalidade para calçar o que, no fim das contas, é uma fabulazinha bem vagabunda em que o amor vence tudo (literalmente) e as coincidências não são coincidências, mas “sinais” ou mesmo a boa e velha “comunicação” entre o papai e a filhinha — por mais que qualquer idiota saiba que, bem, comunicação entre pais e filhos é, tipo, uma impossibilidade física, não é mesmo?

Fiquei pensando como acho muito mais honesto o embate com os nossos Engenheiros e a constatação final de um dos personagens (“Não há nada.”) em Prometheus (que revi ontem, aliás), por mais que o filme de Ridley Scott tenha lá os seus problemas (menores, a meu ver). Lançar-se no espaço e internamente (ou, no caso de Prometheus, visceralmente) é um tatear que produz maravilhamento e horror, beleza e morte em iguais medidas. A protagonista, naquele filme, opta por seguir viagem, ancorada em sua fé, está certo, mas também porque nada mais lhe resta por aqui. A gente se lança para o alto quando o chão desaparece.

Voltando a Interestelar, com o didatismo típico do diretor (“Lázaro”, diz alguém; “Ele voltou dos mortos”, outro complementa), o filme explica, demonstra e desenha conceitos básicos de Física (até para melhor distorcê-los e barateá-los), de tal modo que até o menos capacitado dos espectadores julgará ter compreendido alguma coisa; mais do que isso, o cidadão achará plausível o coelho que salta do buraco negro ali no terço final. O problema é que o amor só é uma grandeza física, quantificável, no distinto Cabaré da Dona Gaga, em Fortaleza-CE, e em estabelecimentos similares. O resto, amigos, é escuridão. E silêncio, graças a D’us.