Assis Brasil sobre o “Dia Morto”

Abaixo, o texto que o escritor e professor Luiz Antonio de Assis Brasil escreveu para as orelhas de Hoje está um dia morto, meu romance de estreia, agraciado com o Prêmio Sesc de Literatura 2005.

Catherine Anyango

AS IDEIAS E AS FORMAS DE DIZÊ-LAS

Esta ficção trata de um tema bastante comum na vida moderna: a falta de utopias, da qual decorre a ausência de perspectivas existenciais. Não é um reviver clássico do tedium vitae, que vem exemplarmente retratado na náusea sartriana, mas algo mais denso, que engloba não apenas o indivíduo, mas toda a sociedade, minando-a em seus fundamentos e negando-lhe um futuro. A quebra de paradigmas decorrente da queda do Muro de Berlim levou-nos a um grande ponto de interrogação, a ser respondido pela Literatura, mesmo que esta se desvincule do comum das ruas. Aliás, Benjamin já nos demonstra que toda obra literária niilista é, no fundo, um sintoma de grave desconforto social.

Para que isso aconteça, porém, é preciso que seu autor seja um esteta (no melhor sentido da palavra), e que saiba jogar com seus materiais técnicos; tal acontece, de modo visível, em Hoje está um dia morto. Ninguém desdiz que o estilo é o homem, como queria Buffon, mas também é certo que o estilo é o conteúdo (le sujet) da obra. O fundo condiciona a forma. Melhor artista não é o que “escreve melhor”, mas aquele que sabe condicionar sua escritura ao material narrado. Um tema como o deste romance, em mãos inseguras, redundaria num vazio; mas o autor, aqui, consegue captar seu leitor pela sedução da palavra certa e da sintaxe perfeita. Se a vida é seca, também é seca a maneira de contá-la.

Estamos, portanto, perante uma obra valiosa no cenário das letras brasileiras, obra que consegue, sem negar a tradição multimilenária da Literatura, sem experimentalismos inócuos e já exasperantes, abrir novos caminhos para a compreensão da vida, do homem e da sociedade. Mesmo que sejam caminhos intransitivos.

Luiz Antonio de Assis Brasil
Porto Alegre, outono de 2006.