Outro filme de amor

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O plano de abertura de Educação Sentimental, um dos mais belos de toda a filmografia de Julio Bressane, remete ao mito de Endimião: uma mulher observa um rapaz lá embaixo, boiando na piscina. Ela se chama Áurea e ele, Áureo. Muito culta, em longas conversas e crescente intimidade, a mulher mais velha educará o rapaz.

A educação, no caso, é mais propriamente afetiva do que “escolar”. O conjunto de porcelanas francesas do século XVIII precisam ser vistos e tocados. A canção de Vassourinha precisa ser dançada. Os limites da racionalidade são ilustrados por uma história próxima, e próxima demais, sobre como a mãe de Áurea, doutora em Filosofia, recusou-se a dar aulas, publicar, compartilhar.

Áurea procura demonstrar um modo de contornar essa cegueira. O intelecto não deve prescindir das demandas do corpo. Ela incessantemente procura ligar uma coisa e outra e constituir, com elas, uma mesma dança. Quando o verbo falha, o corpo é lançado no proscênio. Ela dança a própria história da arte. Nós “ouvimos”.

E, ao contrário do que ocorre no mito, é como se esse Endimião fosse condenado não ao sono eterno, mas, sim, a um despertar. Tal despertar se dá para coisas cujo anacronismo é evidenciado na cena em que ela mostra a ele um pequeno rolo de filme, essa “velharia” em tempos digitais, ou na já citada sequência ao som de um belíssimo samba de Vassourinha (1923-1942).

Diferentemente do que Áurea proclama com o negativo em mãos, talvez não estejamos diante de um “museu”, mas de um inventário de “sensibilidades perdidas”. Entre elas, figura o amor: o envolvimento deles será conspurcado pela intromissão da mãe do rapaz e seu discurso que pretende chocar (incesto, drogas, orgias, suicídio), mas cuja falsidade é corretamente aludida por Áurea como “pornográfica”.

Há, portanto, dois tipos de falsidade em confronto: aquela artisticamente construída (os minutos finais do filme são uma espécie de making of), representada pelo próprio filme, e a outra, na qual a violência flerta com o patético, exemplificada no teatrinho armado pela mãe enciumada.

Com tudo isso, gosto de pensar que o filme se coloca, desde o mais óbvio (texto, antinaturalismo das atuações), como um signo de sua própria inviabilidade. A exemplo do amor entre Áurea e Áureo, e entre Selene, a lua, e Endimião, há algo de inexequível nele. Sua beleza maior está nisso.

O que ela sabe não “serve” para nada. A disposição dele para ouvir, contudo, é a própria argamassa do amor, seja por ela, seja pelo corpo dela, seja pelo conhecimento que ela procura compartilhar, ensinar, seja por tudo isso ao mesmo tempo. Bressane nos pede essa mesma disponibilidade. A partir do momento em que nos dispomos, a sedução tem início. Num certo sentido, todos os seus filmes são filmes de amor.