Dentro da noite interminável

Texto originalmente publicado na revista Bravo!
[ed. 186 – fevereiro, 2013]

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O início de A Hora Mais Escura se dá literalmente no breu. Não se vê nada na tela. Ouvem-se apenas alguns fragmentos de áudio, que o espectador identifica de imediato: são vítimas do 11 de Setembro falando, desesperadas, ao telefone. É por meio desse recurso econômico, mas eficiente, que a diretora norte-americana Kathryn Bigelow introduz sua rascante reconstituição da caçada ao terrorista Osama Bin Laden. O filme, indicado a cinco Oscar, é um relato sóbrio, nada espetaculoso e isento de patriotadas.

O foco está em Maya (Jessica Chastain), uma agente da CIA cuja obsessão é o que mantém a busca ativa por quase uma década. Na condução dessa personagem, aliás, reside o primeiro grande achado do longa. Ela não procura, em momento algum, tecer justificativas “maiores” ou “mais elevadas” para o que faz. Não há nenhum discurso melodramático ou apelos aos embolorados ideais norte-americanos. Dizendo de outro modo, não há desperdício de palavras. Cada silêncio conta, inclusive, como prenúncio à próxima explosão.

No decorrer da caçada, pessoas são presas, torturadas e mortas. Graças à interpretação mercurial de Chastain, podem-se entrever (mas jamais mensurar) os efeitos de tudo isso na cabeça da protagonista. Um pouco do peso inerente à coisa se desenha no plano final, um close devastador que serve, também, para justificar sua indicação ao Oscar de melhor atriz. Ali, tem-se a impressão de que Maya é uma espécie de Ahab, personagem do romance Moby Dick, e sua maior tragédia talvez seja justamente a de sobreviver à Baleia Branca.

Casa Fortificada
A exemplo do que já fazia no anterior e premiado Guerra ao Terror (2008), Bigelow evita baratear A Hora Mais Escura com cenas de ação convencionais. Claro que há muita tensão do princípio ao fim, mas até mesmo o clímax do filme escapa aos parâmetros habituais desse tipo de sequência. A diretora opta pela crueza, e o que se vê é somente um bando de soldados se esgueirando por uma casa fortificada no meio da noite a fim de abater sua presa. Não existe catarse, pelo contrário.

Bigelow, aliás, vem sendo bombardeada por causa das cenas de tortura. Segundo seus críticos, o longa avalizaria as técnicas “extremas” de interrogatório como instrumentos legítimos, uma vez que certos resultados só seriam obtidos por esses meios. Trata-se de um absurdo. A intenção da cineasta é reconstituir os eventos que culminaram no assassinato de Bin Laden. Se, no processo, barbaridades foram cometidas (e é evidente que foram), esse é um problema não do filme, mas do status quo que as permitiu. De resto, o bom cinema não raro se alimenta do que há de pior em nossa noite interminável.