A cineasta norte-americana Kathryn Bigelow filma e monta melhor do que a esmagadora maioria dos marmanjos cujos filmes vejo por aí. Portanto, se há interesse em Casa de dinamite, ele se deve sobretudo ao talento da diretora e do montador Kirk Baxter (colaborador de David Fincher desde Benjamin Button, sendo um dos responsáveis pela estupenda arquitetura fílmica d’A rede social). Bigelow, para quem não sabe ou não se lembra, é responsável por dois dos melhores filmes deste século: Guerra ao Terror (pelo qual ela ganhou o Oscar de direção) e A hora mais escura (que deveria ter rendido outro Oscar para ela).
O cenário proposto em Casa de dinamite é pisado e repisado naquela levada apocalíptica em que Godot está efetivamente a caminho, ainda que, sendo Godot, não o vislumbremos no final. Se, como escreveu o poeta italiano Eugenio Montale, “os inícios são sempre irreconhecíveis”, nossos olhos tampouco distinguem o fim, pois já estão mortos ou enterrados vivos. E o fim, aqui, é o fim para valer, ao menos para o mundo tal qual conhecemos.
É certo que ouvimos as explosões durante os créditos finais, ainda que distantemente, como se estivéssemos no interior de um bunker (ufa!). Logo, aprecio a decisão de encerrar o filme ao fechar o círculo tensional pela terceira vez, algo como o derradeiro nó na corda que nos enforcará; o epílogo e o som das explosões estão ali para nos informar (sem dizer, o que é ótimo) qual foi a decisão presidencial quanto à retaliação.
Claro que filme algum sobre uma possível hecatombe nuclear chega aos pés de Dr. Fantástico (1964), clássico de Stanley Kubrick que teima em não envelhecer, até porque a nossa maldita espécie teima em não amadurecer. Sim, é Dr. Fantástico uma comédia. E das melhores.
Tenho a seguinte opinião, e não é de hoje: a única forma sã de encarar uma hecatombe nuclear provocada por gente muito louca, estúpida e poderosa é pela via da insânia humorística. Mas Kubrick, sendo Kubrick, vai muito além da comédia rasteira e cria uma pérola do humor-negro, expondo a propalada aventura humana como a farsa genocida e suicida que ela, de fato, é. Eu sempre sorrio ao contemplar as bombas que explodem enquanto Vera Lynn canta “We’ll meet again”. A bem da verdade, sinto um tremendo alívio diante daquelas imagens. Para mim, Dr. Fantástico é um filme otimista.
Casa de dinamite não é um filme otimista e tampouco farsesco ou engraçado. Ou melhor, é possível vê-lo com olhos otimistas, farsescos e/ou engraçados, a depender do seu apreço pela raça humana e do tipo de humor que anima a sua alma e as suas retinas, mas não é possível relaxar enquanto ele se desenrola. Bigelow jamais permitiria uma coisa dessas.
Por certo, é interessante o movimento descrito pelo roteiro de Noah Oppenheim, de uma corrida contra o tempo para uma série de vinhetas dramáticas concentradas em determinados indivíduos (incluindo o presidente dos Estados Unidos, interpretado por Idris Elba). Ao enfocar seres humanos diante da real possibilidade de aniquilação, Bigelow confere estofo a um filme que, enquanto thriller, já funcionaria muito bem, obrigado. Sim, ela já dirigiu coisas melhores (incluindo o pouco visto Detroit), mas esse vislumbre do abismo está longe de ser pueril.
