Reeducação alimentar

Notas sobre Éric Rohmer

::: Éric Rohmer (Maurice Schérer, 1920-2010) era um sujeito tão discreto que a mãe dele morreu sem saber que o filho era um cineasta mundialmente famoso.

::: Escrevi estas notas aleatoriamente, ao longo de vários dias, sem qualquer planejamento. Revi alguns dos filmes citados, mas não outros. Talvez essa anedota sobre a mãe dele seja apócrifa. Não sei quando ela morreu. Mas gosto de imaginar que o irmão caçula de Rohmer, o filósofo e professor René Schérer, era cúmplice no acobertamento. Imagine a ceia de Natal na casa da família Schérer. “O que tem feito, Maurice?” “Brincado com a luz, maman.”

::: Rohmer ensaiava à exaustão com os atores, de tal forma que as filmagens eram muito rápidas, com equipes cada vez mais reduzidas. Em alguns casos, além dele e dos atores, havia apenas o operador de câmera e o engenheiro de som, e nenhum assistente.

::: Filmando rápido e com recursos mínimos, mas fazendo uma pré-produção minuciosa, Rohmer não perdia tempo nem desperdiçava material. Às vezes, trabalhava assim por necessidade, dados os orçamentos irrisórios de que dispunha, sobretudo no começo da carreira.

::: Dizem que o pessoal do laboratório, ao receber os copiões d’A colecionadora, achou que se tratava de um curta-metragem.

::: Salvo engano, A colecionadora foi o primeiro filme colorido de Rohmer. Ele e o fotógrafo Néstor Almendros fazem um uso esplendoroso da luz natural. De novo, a invenção nasce da necessidade: eles tinham pouquíssimas luzes artificiais à disposição. A sensualidade que atravessa a narrativa é iluminada pelas janelas abertas para o ócio e pelos poros abertos sob o sol e sob os olhares dos outros e (claro!) diante dos nossos olhos.

::: Ócio, essa coisa trabalhosa.

::: De uma excelente entrevista cedida por Rohmer à Cahiers du Cinéma¹:

Ao final de A Carreira de Suzanne, o narrador muda de ideia sobre Suzanne ao vê-la abraçada a um novo rapaz. Compreende então quais eram as suas relações com a primeira amante e porque ela lhe agradava. Poderia expressar isto através de um salto para trás. Poderia ter sobreposto duas visões eróticas dessa moça, uma em que aparecesse feia, outra em que aparecesse bonita, ao final. Preferi manter-me objetivo. O ponto de vista que se tem sobre ela é sempre o mesmo e a distinção só é expressa pelo comentário. Vocês me dirão que isto é literatura, eu responderei que não. O comentário não é uma coisa impura, seria se não tivesse nenhuma relação com a imagem. Quando profundamente ligado a ela, obtém-se, visto que a palavra e a imagem estão estreitamente unidas pelo fato único do cinema ser falado, um conjunto palavra-imagem onde cada polo ilumina o outro. O conjunto é puro na medida em que só o cinema é capaz dele. Somente o cinema é capaz de unir a palavra e a representação visível do mundo.

::: Outro trecho da mesma entrevista:

Sim, o cinema deve dirigir-se à busca de uma certa pureza. Se dissessem que em meus filmes recorro à literatura, essa acusação me afetaria. Eu me defenderia. Se a ela recorro é somente para utilizá-la de outra maneira que nas obras literárias. (…) É um erro conceber a pureza do cinema limitando-a a um de seus aspectos. Pensar que o cinema é puro unicamente porque é imagem é tão estúpido como crê-lo puro unicamente porque é som. A imagem não é mais pura que o som ou que outra coisa, mas, na união de diferentes aspectos, creio que possa se manifestar uma pureza própria do cinema. O que chamaria de impuro é uma certa maneira de concebê-lo que impede o descobrimento de suas próprias possibilidades e que, ao invés de seguir um caminho que só a ele cabe percorrer, avança por caminhos emprestados das outras artes. (…) O cinema é uma arte na qual a organização das formas é muito importante, mas é necessário que ela seja feita com os meios próprios ao cinema e não com outros (…). Do mesmo modo, o cinema é uma arte dramática, mas é preciso evitar que essa dramaturgia se inspire na dramaturgia teatral. É igualmente uma arte literária, mas convém que seus méritos não residam unicamente no roteiro e nos diálogos. O fato de unir estreitamente a palavra à imagem cria um estilo puramente cinematográfico. (…)

::: Há uma célebre fala do personagem interpretado por Gene Hackman em Um lance no escuro (Night moves, 1975), de Arthur Penn. Convidado pela esposa para ver Minha noite com ela (1970), ele responde: “Vi um filme desse Rohmer uma vez. Foi como ficar observando a tinta secar”.

::: Penn, sublinhe-se, era admirador do cinema de Rohmer (e imagino que o roteirista Alan Sharp também fosse). Aliás, Bruce Jackson escreveu um belo ensaio sobre a influência de Minha noite com ela em Um lance no escuro, sobretudo na maneira como seus respectivos protagonistas fazem certas escolhas morais. Trecho:

Se você não viu Minha noite com ela, é improvável que saiba da devoção do personagem principal a uma ideia ou da enorme quantidade de tempo de tela dedicado a Pascal e à [discussão sobre] escolha moral. (…) foi exatamente o filme a que a esposa de Harry assistiu na noite em que ele descobre que ela tem um caso. Mas a cena é muito mais ressonante se você souber que a questão central no filme de Rohmer é sobre fazer escolhas quando não se pode saber quais são as possíveis consequências. Também ajuda se você souber que Minha noite com ela é um filme sobre um homem que tem a oportunidade de trepar com uma mulher linda e inteligente, mas opta por não fazer isso; que a mulher de Harry estava vendo o filme na companhia de um homem com quem vinha trepando secretamente sabe-se lá desde quando; e que, depois, quando Harry tem a oportunidade de trepar com uma mulher atraente e trepa, sendo que ela está envolvida com outro homem, ele não está exatamente fazendo uma escolha, mas se distraindo.

::: Foder com outra para não se entediar ou porque está entediado: eis um animal triste, um corno merecedor dos chifres, um corno sem imaginação. Ele nada tem da vitalidade de Haydée (Politoff), A colecionadora — alcunha que lhe é porcinamente impingida pelos marmanjos que estão ao redor, agindo como crianças. Haydée busca algo, embora não saiba muito bem o quê, mas ela busca e se diverte e, caramba, vive.

::: A exemplo do que ocorre em todos os Contos morais de Rohmer, n’A colecionadora também há uma escolha, mas ela se confunde com a fuga do protagonista (Patrick Bauchau). Primeiro, ele foge de Haydée (que, ademais, não voltaria tão cedo, tendo mais o que fazer). Depois, assustadiço, foge de Saint-Tropez para Londres, o que é bastante engraçado, ainda mais se levarmos em conta o climão que se instaura em um dos prólogos do filme.

::: Os diálogos sempre me apaixonam nos filmes de Rohmer, desde as discussões filosóficas em Minha noite com ela até o papo sobre a cor das alfaces durante um almoço praiano n’O raio verde. Mas, antes dos diálogos, estão os espaços, como os personagem se situam nos espaços e as formas como os espaços são enquadrados e recortados, não raro pela luz natural. A luz incide, esconde, revela, direciona o olhar e, junto com o olhar, o juízo, que é seguidamente discutido, problematizado e, dependendo das circunstâncias, tranquilamente ridicularizado.

::: É difícil imaginar a troca confessional em Minha noite com ela sem a neve que cai lá fora e a impossibilidade momentânea (um exagero, claro) de sair daquele espaço, um apartamento gradativamente contaminado pela memória e pelas elucubrações em torno das memórias pessoais. E, “presos” ali, os personagens se movimentam, deambulam, o homem hesita entre ir e ficar, depois entre permanecer na poltrona ou se deitar com a mulher, e, por fim, entre foder ou não. Quando a manhã os alcança, luz de inverno, ainda há espaço para uma despedida comicamente civilizada e a promessa de um reencontro logo mais, lá fora, no espaço aberto, mas sob o céu fechado — na verdade, o reencontro é um prolongamento da despedida.

::: Fredric Jameson (citado por Paul Schrader em Transcendental Style in Film: Ozu, Bresson, Dreyer) afirmou² que, enquanto Andrei Tarkovski empanturra o olhar do espectador, Robert Bresson trata de esfaimá-lo. É uma boa sacada. Seguindo por esse caminho, Rohmer³ sempre me ofereceu a porção justa e adequada, de tal forma que seu cinema é também um exercício de reeducação alimentar.

NOTAS

¹ Cahiers du Cinéma, 172, novembro de 1965, p. 32-43 e 56-59. Tradução: Felipe Medeiros, originalmente publicada AQUI. Furtei do Coletivo Atalante; a entrevista foi republicada por eles em duas partes, AQUI e AQUI.

² Em The Geopolitical Aesthetic: Cinema and Space in the World System (Bloomington: Indiana University Press; Londres: British Film Institute, 1992), p. 93.

³ Os seis filmes (dois curtas e quatro longas) da série Contos morais (A padeira do bairro, A carreira de Suzanne, A colecionadora, Minha noite com ela, O joelho de Claire e Amor à tarde) estão disponíveis no streaming Belas Artes à La Carte.