Resenha publicada no Estadão.

Em O retorno do barão de Wenckheim, Krasznahorkai constrói uma narrativa de muitas vozes num mundo em extinção.
É preciso ressaltar logo de cara duas das maiores qualidades do romance O retorno do barão de Wenckheim (Companhia das Letras, tradução de Zsuzsanna Spiry), de László Krasznahorkai: o humor e o ritmo. Premiado com o Nobel de Literatura em 2025, o húngaro foi descrito por aí (em geral por gente que desconhece seu trabalho) de forma sisuda, como um autor de ficções ásperas, friorentas e caudalosas que transitam por cenários apocalípticos ou quase. Ora, é perfeitamente possível possuir tais e tais características, mas também ostentar um estilo que nada tem de opaco, hermético ou árido. Em outras palavras, Krasznahorkai escreve tão bem que não raro é divertido — não obstante os horrores descritos aqui e ali.
Sim, ele adora construir longos blocos narrativos. Um de seus romances mais recentes (ainda inédito no Brasil), Herscht 07769, tem mais de 400 páginas e é estruturado em uma única frase, ainda que haja quebras em subseções oferecendo respiros aqui e ali. O retorno do barão de Wenckheim é menos radical, mas também desafiador à primeira vista: cada uma de suas partes (“danças”) é composta por parágrafos e períodos que, às vezes, prolongam-se por páginas e páginas, alternando uma infinidade de vozes, momentos e pontos de vista. Aqui, mais uma vez, faz-se necessário frisar que a dificuldade é apenas aparente. Dentro do jogo narrativo que engendra, o autor utiliza com tanta destreza as ferramentas que esses períodos extensos e as alternâncias não escondem ou obscurecem nada, mas abrem um mundo aos nossos olhos. Uma vez acostumados com o ritmo das “danças”, acompanhamos sem maiores dificuldades as andanças, angústias e intrigas dos personagens.
O barão do título é um sujeito arruinado que vive há décadas em Buenos Aires. Preso por dívidas de jogo, é resgatado por distantes parentes vienenses, receosos de que o escândalo manche o nome da família, e retorna, sessentão, à Europa. Retendo na memória a imagem (da imagem) de uma paixão juvenil, ele decide regressar à cidade natal nos cafundós da Hungria, “o lugar onde tudo começou, para buscar a origem daquilo que parecia tão bonito, mas a partir do que tudo se configurou tão, tão errado”. A notícia do regresso deixa o local em polvorosa: políticos, autoridades e moradores creem na chegada de um benfeitor que doará sua fortuna às causas públicas e privadas, legais e escusas (sobretudo escusas). No entanto, o que aterrissa na cidade é um aristocrata falido e amalucado, cujos olhos logo percebem que “não restou nada daquele mundo que existia ali”, pois “existe um deserto no lugar da cidade que um dia deixou” e ele é a “vítima estúpida de uma ‘realidade ilusória’”. Parafraseando Italo Calvino, não tardará para que tenhamos um barão partido ao meio.
O melhor do romance está na teia de vozes que o compõem: a paixão do protagonista (Marika), o líder de uma gangue de motoqueiros neonazistas (não por acaso, aliados das forças de segurança locais), o “Professor” perseguido pela tal gangue, a bibliotecária apaixonada pelo chefe, o prefeito, o comissário, o autoproclamado “secretário” do barão, Dante (que assume o apelido porque sua cabeleira lembra a do zagueiro brasileiro que jogou pelo Bayern de Munique), e muitos outros.
Krasznahorkai alterna momentos de humor absurdo — como a “Advertência” que abre o livro, o imbróglio envolvendo o “Professor” e sua filha ativista e, claro, a recepção que oferecem ao barão, na qual motoqueiros com suas buzinas e um coral de senhoras trucidam Don’t cry for me, Argentina, do musical Evita — e outros de extrema densidade filosófica — como as elucubrações do “Professor” que fecham a “dança” intitulada “Infinitas dificuldades”: “um colapso imenso acontecerá (…) quando realmente entendermos que toda a cultura humana é falsa em seus fundamentos”.
Diante do colapso, ressalte-se que tudo degringolou muito antes, “quando todas as localidades estão chafurdando na miséria, (…) este país miserável foi abandonado por completo, (…) estamos à mercê de trapaceiros, ladrões, assaltantes e assassinos”. Assim, a cidade, as relações sociais e, por fim, a própria realidade se esfarelam pouco a pouco, mas de forma cada vez mais acelerada, e a frase de ecos pynchonianos que encerra o grosso da narrativa — “Agora todo mundo” — sugere que o próprio romance vai pelos ares com o resto. Por sorte, é só uma impressão passageira, pois o objeto e seu conteúdo persistem, e o peso d’O retorno do barão de Wenckheim é considerável mesmo neste mundo de “leveza” apocalíptica e ignorância orgulhosa de si.
