Da ‘República’: as alegorias da linha e da caverna e a vida prática.

O incipit da República de Platão é uma discussão sobre a vida justa do indivíduo, mas o diálogo avança para uma investigação da ordem e da desordem na cidade, pois, nas palavras de Sócrates, “num espaço maior, talvez haja mais justiça e seja mais fácil entendê-la” (368e). O movimento especulativo, assim, parece obedecer a uma espécie de gradação qualitativa: mira-se a cidade para melhor enxergar o indivíduo. A polis ordenada reflete a alma ordenada, na medida em que a justiça é entendida como uma espécie de arranjo harmonioso das partes da alma.
Quando lemos, no decorrer do diálogo, sobre a educação daqueles que administrarão aquela polis fundada em logos, não é difícil observar o quão imprescindível é a formação espiritual para os que servirão na vida prática. A ideia norteadora dessa formação é o Bem. Escreve Paul Natorp (p. 379):

(…) Isto é, somente na contemplação do Bem uma pessoa age reflexivamente (…), tanto na vida privada como pública. Desse modo, a virtude da reflexão é colocada de forma mais enfática (518de) antes de todas as outras ‘assim chamadas’ virtudes da alma. Visto que foi mostrado anteriormente, quando da derivação das virtudes tanto da vida individual como pública, como todas elas se unificam, em última análise, na regra da parte racional da alma, i.e., na virtude da reflexão, a relação se estabelece entre, de um lado, o ponto mais elevado, a saber, a ideia de Bem como a ideia em geral, e, de outro, a tarefa de organizar a vida do indivíduo e da sociedade.

É nesse sentido, prossegue Natorp, e aqui o parafraseamos, que a ideia de Bem serve como um “paradigma” (as aspas são dele) a organizar tanto a vida privada quanto a vida pública.
Antes, na República, não é por acaso que o Bem é identificado com o sol, ou como um símile do sol, por meio de uma analogia. Em 508a, Sócrates pergunta: “De quem é a luz que faz com que vejamos com a maior nitidez possível e sejam vistas as coisas visíveis?”. O Bem seria algo como a “essência” ou a “causa primeira” (embora Platão não se expresse nesses termos). Tudo o que é, é pela ideia do Bem, pois quando a “alma se apoia no que a verdade e o ser iluminam, ela o concebe, conhece e parece ter inteligência”; contrariamente, quando ela “se apoia em algo em que se mistura com a escuridão, aquilo que vem a ser e perece, ela emite opiniões e a visão turva”, pois revela-se instável e incerta, “mudando suas opiniões numa e noutra direção, e então se assemelha a alguém que não tem inteligência” (508d).
Voltando um pouco à analogia entre o sol e a ideia do Bem, recorremos ao comentário de Francisco L. Lisi, constante do livro organizado por Raul Gutiérrez, a fim de melhor esclarecê-la (p. 160): “El sol es considerado aqui como transcendente respecto de los objetos vistos, e. d. tiene uma naturaleza cualitativa y esencialmente diferente de ellos. Lo mismo sucede com el bien. El bien agrega (…) la esencia y el ser”.
O Bem encontra-se numa posição ontologicamente superior relativamente aos objetos conhecidos e, encarado assim como “límite y medida”, constitui a própria “condición de posibilidad de todo conocimiento”. Seguimos com Lisi (p. 161):

La alegoria del sol, introducida para clarificar en qué sentido el bien no es ni placer ni inteligência, sino algo diferente de estos complementa, por la tanto, la idea implícita en el passaje introductorio: el bien no es solo medida, sino también causa eficiente del mundo ideal y hasta del mismo mundo fenomênico, a través del sol, su vástago.

A partir dessa noção do Bem como condição de possibilidade do conhecimento, entendemos a alegoria da linha (509d ss.) em seu caráter epistemológico, na medida em que descreve os modos de ser e conhecer. A gradação é evidente, do visível ao inteligível, das imagens aos seres formais (ideias), passando pelos seres físicos e fabricados (que servem de modelo aos imagéticos) aos seres matemáticos e afins (que, por seu turno, são os modelos para os seres físicos e fabricados). E “quanto mais os objetos participarem da verdade tanto mais clareza terão”, diz Sócrates (511e), e também, um pouco antes (511b-c):

(…) Fica agora sabendo que a seção das coisas inteligíveis é aquela em que é a própria razão que as apreende com a força da dialética, considerando as hipóteses não como princípios, mas realmente como hipóteses, como degraus e pontos de apoio, para chegar ao princípio de tudo, aquele que não admite hipóteses. Num movimento inverso, por sua vez, presa a tudo que depende desse princípio, vai descendo na direção do fim e, sem servir-se de nada que seja sensível, mas apenas das próprias ideias, por meio delas e por causa delas, acaba por chegar às ideias.

Natorp entende (p. 374) “que o ‘início sem pressuposição’, que é o que a ideia do bem significa, deve ser alcançado unicamente através do retorno lógico a partir dos princípios relativos das ciências concretas específicas para os fundamentos supremos e totalmente puros do pensamento”. Reitere-se a gradação epistemológica, representada pela subida, e ressalte-se que é o método dialético que se encontra na parte superior da linha.
A dialética é a única maneira de captar intelectivamente o Bem, “que es definido principio de la realidade y del que dependen las restantes ideas” (Lisi, p. 162). Tal “aspecto demiúrgico” da ideia do Bem, ainda na interpretação de Lisi, é reafirmado pela alegoria da caverna (517b-c):

(…) No mundo cognoscível, vem por último a ideia do bem que se deixa ver com dificuldade, mas, se é vista, impõe-se a conclusão de que para todos é a causa de tudo quanto é reto e belo e que, no mundo visível, é ela quem gera a luz e o senhor da luz e, no mundo inteligível, é ela mesma que, como senhora, propicia verdade e inteligência, devendo tê-la diante dos olhos quem quiser agir com sabedoria na vida privada e pública.

Observe-se, sobretudo pelas palavras derradeiras do trecho citado acima, que não basta ao filósofo ascender ao patamar superior da linha, sendo imprescindível que ele retorne (desça) e se movimente, no âmbito mesmo da vida cotidiana, à luz do que atentou. Além de “princípio lógico absoluto”, o Bem é, também, um “princípio ético absoluto” (Natorp, p. 379).
Para sermos mais precisos, Natorp enxerga um tripé quanto à ideia de Bem, entendendo-a como um princípio organizador dialético, ético e cosmológico. O Bem é aquilo que se mantém constante em meio ao devir, significando, assim, “subsistência” (Bestand). Especificamente em relação à ética, o Bem é “o elemento que subsiste em cada desejo por causa da unidade de propósito” (p. 383).
Guardadas as diferenças entre as leituras do texto de Platão feitas por Natorp e Werner Jaeger, talvez convenha recorrer a este último para sublinhar um certo conteúdo “paideutico”, relativamente à vida prática. Ainda que o neokantiano Natorp rejeite (p. 380) “a assunção de que, além das ideias como causas formais, existe outro princípio existencial funcionando como causa eficiente, isto é, o demiurgo, ou simplesmente o Deus da religião”, assunção que nos parece fundamental na leitura de Jaeger, o modo como este vincula as alegorias platônicas numa só “encarnação simbólica da essência da paideia” (p. 887) é algo que, neste contexto, achamos por bem ressaltar.
Para Jaeger, a caverna seria (p. 887) “uma alegoria da natureza humana e da sua atitude perante a cultura e a incultura, a paideia e a apaideusia”. A essa altura, a paideia não é enfocada “do ponto de vista do absoluto, como na alegoria do Sol”, mas, sim, do ponto de vista do homem enquanto “transformação e purificação da alma para poder contemplar o Ser supremo”, constituindo, assim, o pathos de um “processo interior de cultura” (explícito, por exemplo e segundo Jaeger, no ensino das matemáticas e da dialética, conforme observamos no decorrer do Livro VII).
Seja como for, o ponto que nos parece fulcral no desenvolvimento deste trabalho é que a contemplação do Bem é imprescindível a “quem quiser agir racionalmente tanto na vida privada como na pública” (Jaeger, p. 885), conforme Natorp também ressaltou em trecho citado parágrafos atrás, ambos parafraseando Platão (517c, também transcrito acima). Para tanto, é também imprescindível que (519 c-d), uma vez que os possuidores das “melhores naturezas cheguem ao aprendizado”, isto é, vejam o Bem e empreendam a “caminhada para o alto”, eles desçam “para junto daqueles prisioneiros”, pois (520c), uma vez habituados às sombras, eles verão “mil vezes melhor que os de lá e, quanto a cada uma das imagens”, reconhecerão “o que ela é e de que coisa é sombra”, pois já terão “a visão da verdade a respeito das coisas belas, justas e boas”.
Como se vê, a vida prática está compaginada às atribuições do filósofo na polis concebida na República, tanto que a exigência de sua descida aos encargos na cidade nada mais é do que exigir “de pessoas justas o que é justo” (520 d-e).

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[Também fiz um breve estudo sobre a passagem 473d-e do Livro V da República. Leia AQUI.]

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LISI, Francisco L. Bien, intelecto y demiurgo en Platón. In: GUTIÉRREZ, Raul (editor). Los símiles de la República VI-VII de Platón. Lima: Pontificia Universidad Católica del Peru, 2003.
JAEGER, Werner. Paideia – A Formação do Homem Grego. Tradução: Artur M. Parreira. São Paulo: Martins Fontes, 2011 (5ª edição, 2ª reimpressão).
NATORP, Paul. Teoria das Ideias de Platão – Uma Introdução ao Idealismo. Tradução: Euclides Calloni e Saulo Krieger. São Paulo: Paulus, 2012.
PLATÃO. A República. Tradução: Anna Lia Amaral de Almeida Prado. São Paulo: Martins Fontes, 2006.