Agamben, Heidegger, analíticos

“(…) Pode ser que a vida desapareça da face da Terra, que nenhuma memória do que foi permaneça, para o bem e para o mal. Mas você continua como antes, é tarde para mudar, não há tempo.”

“(…) Vivemos em casas, em cidades queimadas de cima a baixo como se ainda estivessem em pé, as pessoas fingem viver aí e saem pelas ruas mascaradas entre as ruínas, como se ainda fossem os bairros familiares de outrora.”

“Quando pensamento e linguagem se dividem, acreditamos poder falar nos esquecendo que estamos falando. Poesia e filosofia, enquanto dizem algo, não esquecem que estão dizendo. Se lembramos da linguagem, se não nos esquecemos que podemos falar, então somos mais livres, não somos obrigados às coisas e às regras. A linguagem não é um instrumento, é nosso rosto, o aberto no qual estamos.”

“Nos próximos anos só existirão monges e delinquentes.”

— Giorgio Agamben, em Quando a casa queima (trad.: Vinícius Nicastro Honesko. Ed. Âyiné, 2021).

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A presença de Heidegger no pensamento de Agamben é avassaladora. Vide o conceito de aberto (e, não por acaso, livro fundamental na trajetória do italiano é O Aberto). Linguagem como morada do ser, linguagem como rosto. Enquanto isso, a casa queima.

Sim, é tarde para mudar. Não, não há tempo.

Foda-se.

Mas, também graças ao incêndio, a intuição de Heidegger ainda reverbera. Ele nos diz em “O fim da filosofia e a tarefa do pensamento”: algo “permanece impensado no apelo à questão mesma”, e a tarefa do filósofo (a tarefa que resta) é perguntar por esse algo. Ele chega ao aberto por essa via (p. 76-77):

(…) A dialética especulativa é um modo como a questão da Filosofia chega a aparecer a partir de si mesma para si mesma, tornando-se assim presença. Um tal aparecer acontece necessariamente em uma certa claridade. Somente através dela pode mostrar-se aquilo que aparece, isto é, brilha. A claridade, por sua vez, porém, repousa numa dimensão de abertura e de liberdade que aqui e acolá, de vez em quando, pode clarear-se. A claridade acontece no aberto e aí luta com a sombra. Em toda parte, onde um ente se presenta em face de um outro que se presenta ou apenas se demora ao seu encontro; mas também ali, onde, como em Hegel, um ente se reflete no outro especulativamente, ali também já impera abertura, já está em jogo o livre espaço.

O que é, então, a clareira? É “o aberto para tudo que se presenta e ausenta”. Assim colocada, a questão é de uma tremenda singularidade, pois não se trata de um ou mais termos jogados ao acaso: “O que a palavra designa no contexto agora pensado, a livre dimensão do aberto, é, para usarmos uma palavra de Goethe, um ‘fenômeno originário’”. Ou, sendo mais acurado, “uma questão originária” (p. 77). Tal questão fora deixada de lado no desenrolar do pensamento ocidental. Mas, se nos fixarmos nos primórdios, encontramos em Parmênides a nomeação da Alétheia, o desvelamento (p. 78): “tu, porém, deves aprender tudo: / tanto o coração inconcusso do desvelamento / em sua esfericidade perfeita / como a opinião dos mortais a que falta / a confiança no desvelado”.

A clareira do aberto é o que possibilita a experiência do desvelamento, o lugar em que está “a possibilidade de a própria presença presentar-se”. Há, portanto, que se instituir uma aliança entre ser e pensar, permitindo que essas duas coisas constituam um “comum pertencer”. Embora tenha sido colocada (nomeada) por Parmênides, a Alétheia não foi pensada pelos que vieram depois, nem mesmo por Platão e Aristóteles. Nas palavras do próprio Heidegger (p. 80), “a Filosofia fala da luz da razão, mas não atenta para a clareira do ser”.

No entanto, e isso é curioso (mas não propriamente contraditório), o meu objeto de pesquisa na pós não é Heidegger, mas, sim, a metafísica descritiva de um filósofo analítico sui generis (ao menos em 1959, quando publicou um livro fundamental intitulado Indivíduos) — Peter Frederick Strawson.

Há muitos mal entendidos acerca da filosofia analítica. Há quem a identifique única e exclusivamente com o positivismo lógico, essa “desordem de infância da filosofia analítica” (na feliz formulação de Hans-Johann Glock). Mas, desde meados do século passado, pensadores como Strawson, Hilary Putnam, Donald Davidson e o recém-falecido Saul Kripke propuseram várias discussões de cunho ontológico. E Strawson, ali mesmo em Indivíduos, além de ancorar-se em uma ontologia realista, foi o responsável por resgatar (não sem causar uma enorme polêmica, mas assim é a vida) os chamados argumentos transcendentais.

É bastante provável que Heidegger, diante de tais desdobramentos, insistisse que esses e outros pensadores analíticos simplesmente persistiram no engano, trafegaram, felizes, pela via cujo quilômetro zero é aquele desvio originário, platônico-aristotélico, lançando mão, inclusive, do maior palavrão de todos (“metafísica”).

Mas gosto de pensar que Heidegger e Strawson, não obstante suas enormes diferenças, circulam ao redor da mesma clareira.

Em Analíse e Metafísica, por exemplo, Strawson afirma que a tarefa principal do filósofo é responder a duas perguntas: “quais são os conceitos e categorias mais gerais que organizam nosso pensamento, nossa experiência, acerca do mundo? E como se relacionam entre si dentro da estrutura total do pensamento?” (p. 54). Responder a essas perguntas implicaria um esclarecimento “na sua forma mais geral”, ou seja, um esclarecimento acerca da maneira como concebemos o mundo tal como ele realmente é. Ou: respondê-las é uma forma de abordar a “nossa ontologia mais básica (a ontologia em atividade)”.

Eis aí uma investigação de caráter fundamental, cujos escopo e generalidade a colocam além da mera análise conectiva, uma investigação que, em suma, não se prende às “malhas da gramática” (Nietzsche, §354 d’A Gaia Ciência), embora, claro, seja possível sustentá-la em um âmbito “gramatical” (como faz Strawson na segunda parte de Indivíduos, em sua discussão sobre os sujeitos lógicos e a tipificação predicativa).

E daí?

Agamben, de novo: “A filosofia, língua morta. (…) Talvez não uma língua morta, mas um dialeto. Que filosofia e poesia falem numa língua que é menos que língua: essa é a medida do seu estatuto, de sua especial vitalidade. Pesar e julgar o mundo comiserando-o a um dialeto, a uma língua morta, e, todavia, nascente, na qual não há nem mesmo uma vírgula a ser mudada. Continue a falar esse dialeto agora que a casa queima”.

O fogo ainda não chegou ao centro da clareira. Mas chegará, eventualmente. Ajamos de acordo.

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NOTAS

As citações de Heidegger estão no volume correspondente da coleção Os Pensadores. Tradução: Ernildo Stein. Abril Cultural, 1979.

A “feliz formulação” de Glock está em O que é filosofia analítica (tradução: Roberto Hofmeister Pich. Ed. Penso, 2011). A leitura desse livro certamente evitaria inúmeros mal entendidos concernentes não só à filosofia analítica, mas também à filosofia contemporânea como um todo. As pessoas falam muita merda por aí.

Sobre os argumentos transcendentais, Strawson devia muito a Kant (e também a Hume e Wittgenstein, mas essa é outra discussão), e pagou essa dívida (juros inclusos) com The Bounds of Sense (1966).

Análise e Metafísica: uma Introdução à Filosofia. Tradução: Armando Mora de Oliveira. Discurso Editorial, 2002.