“Abner, de quem aquele jovem é filho?”

[Este é o prólogo do meu romancemprogresso.]

 

 

— Desci ontem à cidade, fui à missa e depois ao cemitério. Aquele mundaréu de gente. Você estava fora, né? — Glória observou o sobrinho balançar a cabeça bem devagar, sim, sim, e então levou a mão direita aos cabelos grisalhos e cacheados enquanto a esquerda trazia a latinha de cerveja até a boca; tomou um gole pequeno, depois outro, fechando os olhos por um instante. — Bonita demais a procissão, o povo reunido daquele jeito, como se fosse uma coisa só. Impressionante.
— Imagino — ele disse, soltando um arroto antes de abrir outra latinha. Estavam sob a mangueira, sentados em cadeiras de metal, a caixinha de isopor no chão. Uma sexta-feira abafada de setembro. — Mormaço, né?
— Né — agora ela olhava para a frente, para longe, por sobre o telhado da casa. Nuvens indo e vindo, o sol aparecendo e desaparecendo em intervalos irregulares, feito um parente adoentado que só deixa o quarto e aparece na sala de vez em quando, cumprimenta as visitas e retorna ao leito, desculpa o mau jeito, meus dias estão contados. Outro gole de cerveja antes de: — Então. Primeiro teve a missa, toda a cantoria, depois o silêncio quando a multidão saiu da igreja e caminhou até o cemitério. Bota multidão nisso. A rua inteirinha tomada. Eu não me lembro de ter visto nada igual por esses lados.
— Mas o que surpreende é te ver emocionada com essas coisas.
— Pois é, deve ser a idade. E tem o Nilson, claro.
— Ele te catequizou?
— De jeito nenhum — ela riu.
— Como não?
— Ele sempre vai à missa, nunca me chama, nunca me enche o saco pra ir, mas se arruma todos os domingos, pega o carro e vai. Acho bonitinho.
— Não teve uma vez que ele encheu um padre de porrada? Logo que assumiu a delegacia? Meu pai contava essa história.
— Foi, sim. Padre Sérgio. Andou se engraçando com as meninas de um daqueles grupos de jovens, pastoral da juventude ou coisa parecida. Oferecia carona e aprontava. Meninas de treze, catorze anos, e o desgraçado se esfregando, botando o pau pra fora, puxando a mão delas, pega aqui, vai. E as meninas não comentam, né? Medo, vergonha. Até ele pegar a sobrinha da moça que era escrivã na época, esqueci o nome dela… enfim, ela contou tudo pra tia, que falou pro Nilson, e o Nilson catou o safado, ele e o Evangelino, lembra dele? Pois é, o Nilson e o Evangelino levaram o padre pro meio do mato, aplicaram uma surra no filho da puta, depois colaram os lados da bunda dele com Super Bonder, tapando o cu, sabe?
Cristiano gargalhou. — Porra, não lembrava desse detalhe.
— O padre foi transferido rapidinho, como sempre acontece. Nilson descobriu pra onde e avisou o delegado de lá. Não sei se o animal continuou aprontando. Provável que sim, né? Tomando mais cuidado, escolhendo melhor as presas, esses doentes sempre dão um jeito. Bicho assim a gente devia sacrificar logo de cara.
— A senhora é uma educadora, tia Glória.
— Aposentada. Mas por que é que a gente está falando disso mesmo?
— Bom, a pessoa começa falando sobre a beleza da liturgia católica, missa e sei lá mais o quê, daí pra pedofilia é um pulo.
— Ah, então — pigarreou. — Eu comentei ontem com a Marta, acho que essa comoção tem um lado bom, apesar das circunstâncias, claro, apesar de toda essa desgraceira que… assim… Ontem, lá na igreja, era como se as pessoas estivessem unidas de novo, ao menos por um tempinho. A dor faz isso. Aproxima, ou reaproxima.
— Nada como uma desgraça fodida pra unir a comunidade, é isso?
— Você sabe, eu odeio essa… Dei aula no colégio, as freiras sempre me trataram muito bem, mas duvido que as coisas boas compensem as ruins, duvido mesmo. Se bem que ontem… estou meio confusa hoje, né?
— Acontece.
— Deve ser a ressaca.
— Acontece.
— Mas é isso mesmo, a ocasião me pegou, não vou mentir. E ontem todo mundo cantou com vontade, como se a música e a reza ajudassem a arrancar essa desgraceira do peito, da cabeça, da lembrança, da… da própria alma da cidade, talvez? Depois, a rua completamente lotada e, ainda assim, aquele silêncio todo, só o barulho dos solados no asfalto, o som dos passos. E as pessoas rezavam sem abrir a boca, baixavam a cabeça e rezavam em silêncio. Isso me emocionou, também. O silêncio, esse silêncio do povo acompanhando os caixões.
— O silêncio é uma coisa boa.
Mais um gole. A língua, ligeira, no lábio inferior. — Mas é uma pena que você não tenha ido. Não dava mesmo pra adiar, remarcar?
Suspirou. Dava, é claro que dava, mas: — Não, não dava.
— Uma pena mesmo.
— E no cemitério, como foi?
— Eu… nós ficamos um pouco por lá depois que acabou. Visitei os túmulos dos parentes, incluindo do seu pai. Dois anos. Dá pra acreditar que já se passaram dois anos? Eu não acredito.
— Nem eu.
— A gente ia voltar pra cá, mas a Marta, você conhece a sua madrasta, ela insistiu que uma cachacinha cairia bem.
— Vai ver ela só não queria ficar sozinha.
— Pode ser. Eu também não queria, pra dizer a verdade. Voltar pra cá e não fazer nada, ligar a televisão, ficar pensando nessa porcariada toda… pra quê, né? Tem dias que a única coisa a fazer é encher a cara.
— Amém.
— Você já foi lá no Bar do Pireu? Fica escondido numa ruazinha detrás do Fórum. Conhece?
— Conheço uns botecos por ali, mas não guardei o nome de nenhum.
— É um boteco com as paredes pintadas de verde, montado no alpendre de uma casa.
— Acho que sei qual é.
— Ficamos só nós três, quer dizer, eu, a Marta e a Simone. Nilson teve que voltar pra cá, uma égua parindo. Você, ele e os compromissos.
— Sempre tem uma égua parindo em algum lugar.
— E sabe quem mais estava no boteco? Zé Maria e Neide. Só rindo mesmo. Prefeito e primeira-dama, os dois com os olhos meio esbugalhados, fumando, bebendo cerveja sem parar.
— Ficaram lá até que horas?
— Onze e pouco — esfregou os olhos com as costas da mão direita, um e depois outro, e fitou o chão; firmou as vistas, bebeu outro gole. — Ei, ai. Tenho mais idade pra isso, não.
— Quem é que tem?
— Acordei meio tonta, ainda. Dormi lá na sua casa. Nilson me buscou hoje cedinho.
— Na minha casa?
— Na fazenda, uai.
Ele sorriu. — A fazenda é da Marta. Seu Lázaro deixou pra ela e pra Simone.
— Lázaro deixou pros três. Você é que não quis saber.
— Mas, claro. Marta toca aquilo lá melhor do que eu jamais tocaria. Porra, ela é melhor nisso do que meu pai.
— O que não é difícil, vamos combinar.
No chiqueiro lá embaixo, à direita da casa, o caseiro matava uma leitoa. O bicho guinchou bem alto por algum tempo, depois parou. Cristiano abriu um sorriso tonto. Senhor, recebei na glória eterna esta serva. São essas as palavras? Se tivesse ido à missa e aos enterros com Glória, Nilson, Marta e Simone, saberia ou se lembraria. Perdoai-lhe os pecados que pela sua fragilidade porcina tiver cometido. Algo do tipo. Requiescat in pace, porquinha. Te vejo à mesa um dia desses. Feijoada nesse calor? Pernil, lombo, costeletas, tudo de bom. Descanse em paz no meu estômago. Como se diz “porquinha” em latim? “Porcina” é uma palavra engraçada. E um bom xingamento. Precisava se lembrar disso. Escrever “porcina” em alguma petição. O juiz ia adorar.
— Que foi? — Glória perguntou, rindo. — Jesusamado, essa sua cabeça. Que bobagem te ocorreu agora, Cristiano?
— Nada — ele sustentou o sorriso e a expressão abobalhada. — Só pensei que também não tenho mais idade pra certas coisas.
— Bom, não sei exatamente a que você se refere, mas eu quase não saio daqui por uma razão.
— Nilson vai à cidade quase todo dia. Passa no escritório pelo menos uma vez por semana, diz oi, conta algumas coisas, ouve outras, bebe um pouco de café e vai embora. Você acha que ele sente saudade do trabalho?
— Sente, sim. Ele gostava muito daquilo. Mas também gosta muito daqui, de cuidar dos bichos, ficar à toa, me paparicar.
— Solzim relapso — o sol voltara a sumir. Nenhuma nuvem carregada, pelo menos, nem sinal de chuva, mas até a luz é displicente por essas bandas, pensou. Na cozinha, Nilson adiantava o almoço. Lasanha. Cristiano odiava lasanha. Antes tivessem matado a leitoa na véspera. Não. Provável que o caseiro se recusasse. Preferia não, dona Glória. Passar a faca num bicho depois de voltar do cemitério (porque era óbvio que o caseiro também fora aos enterros, não?): que mal haveria nisso? Torresmo cairia bem com aquela cerveja. Mas não. Teriam de se virar com a lasanha. Até onde Cristiano sabia, Glória tampouco gostava. Para que se dar ao trabalho, então? Antes Nilson abandonasse a cozinha e o almoço, trouxesse uns tira-gostos, linguicinha frita ou asinhas de frango, azeitonas, salsichas, mais cervejas, reabastecesse a caixinha de isopor e se juntasse a eles. A lasanha que se foda. Olhou para a tia, alargando o sorriso. Estava louca para perguntar desde que ele chegara. Isso o divertia.
— Desembucha, dona Glória.
— Queria mesmo te perguntar um negócio.
— Eu sei.
— Você… — pigarreou. — Você vai mesmo defender o sujeito?
Um longo gole antes de responder. — Uai. Parece que sim. A mãe dele me procurou anteontem. Do pai, ninguém sabe. Não falou comigo, pelo menos.
— Homem esquisito.
— Pois é.
— Amigo seu?
— Só conheço de vista. Vez por outra, aparecia em algum churrasco, alguma festinha, ou em época de campanha, quando todo mundo aparece. Mas é o tipo de sujeito que fica mais pelos cantos. Eu também era desse tipo, mas por outras razões. Não vi mais desde que voltei pra Silvânia. Só a mulher e o filho. Ele, não.
— Eu lembro de quando ele veio pra cá. Todo aquele escândalo.
— Isso foi quando? Noventa e…
— Oitenta e nove. Noventa foi quando eles se casaram.
— Eu era moleque. Não me lembro de muita coisa.
— Mas, e aí? Rosa Maria te procurou?
— Procurou. Teve lá no escritório. Sozinha. Não é engraçado que os dois se chamem Abner? Pai e filho. Se eu cruzar com o velho na rua, vou perguntar: “Abner, de quem aquele jovem é filho?”.
— Do que é que você está falando?
Só que não tem nenhum Davi nessa história. E aqui somos todos filisteus. Piscou o olho direito para ela: — Das Escrituras, minha tia.
— Deixa a Bíblia em paz.
— O que a senhora quer saber?
— Que horas você chegou de Anápolis?
— Eu? Cinco e meia. Se eu soubesse que vocês estavam no tal do Pireu, tinha ido pra lá, deixava pra falar com o infeliz hoje ou amanhã.
— Peraí, você foi à delegacia ontem? Falou com ele?
— Falei, claro que falei. É meu cliente agora. Por quê?
— Uai, sei lá. E você não apareceu na igreja nem no cemitério.
— Sim, mas eu estava em Anápolis na hora dos enterros, tive duas audiências lá.
— Eu sei, você falou, mas…
— E o que foi que o ilustre prefeito comentou lá no boteco? Aquele é outro que só sabe falar.
— Imagina, Zé Maria não disse nada demais. Quer dizer, ele também é advogado, sabe como essas coisas funcionam. Ele acha, e eu concordo, que o problema é a parentaiada das vítimas. Ele era amigo do seu pai, só está preocupado com você. Esse povo, né?
— Esse povo não paga as minhas contas. E todo mundo é parente de todo mundo nessa desgraça de cidade.
Glória riu outra vez. — Só estou te falando pra pensar direito se quer mesmo se meter nessa enrascada.
— Meio tarde pra isso — outro gole de cerveja; segurou o arroto dessa vez. — A mãe dele falou que nunca esperava uma coisa dessas do filho, que não sabe nem o que pensar.
— Mãe nenhuma espera uma coisa dessas de filho nenhum. E ninguém sabe o que pensar.
— Eu sei direitinho o que pensar.
— O que ele te contou?
— Quem? Abner?
— Quem mais?
— Bom, eu cheguei lá e trouxeram o rapaz algemado, fedendo a mijo, cabelo todo bagunçado. Ele não falou muito no começo, só depois de um tempinho é que se soltou. Disse que fazia tempo que andava com a arma no carro. Perguntei por quê. “Porque eu podia, uai.” Tive que fazer força pra não rir. Aquela vozinha fanha e meio fina fica ainda mais engraçada porque ele é um sujeito grandalhão. “Porque eu podia, uai.”
— Puta que pariu.
— Daí ele falou do churrasco, contou que a turminha bebia desde sábado, aproveitando o feriadão.
— Três dias. Invernaram.
— Pois é. Como sempre acontece nesse tipo de evento, ainda mais depois desse tempo todo de cachaçada, um dos presentes foi eleito.
— Hein?
— É, uai. A senhora sabe como funciona. O pessoal fica bêbado, o pessoal fica entediado, o pessoal fica chato, e aí elege um pra provocar, pegar no pé, encher o saco. Sempre sobra pra alguém. E às vezes a coisa extrapola, né? Ou o sujeito está num dia ruim e apela.
— Bota dia ruim nisso.
— Bota apelação, também, porque né.
— Ele contou o que foi que…
— Qual tópico escolheram pra pegar no pé dele? Falou, não. Mas isso nem é relevante. Quer dizer, é sempre a mesma merda, a galera enche o cu de cachaça e azucrina quem estiver por perto. E essa porra vai crescendo, sufocando. Quando era comigo, eu até conseguia relevar, aguentava calado, deixava pra lá, ou descontava no próximo da fila, porque é isso que acontece, pelo menos.
— Isso o quê?
— A fila anda, rola uma certa rotatividade. Todo mundo tem seu dia na berlinda. Eu passava a merda adiante, mas tem gente que não consegue, que vai guardando tudo no peito, na garganta, e esse troço fica entalado. Daí chega uma hora que estoura mesmo.
— Tá, mas assim?
— Acho que assim é o novo jeito das coisas.
Glória bufou, segurando a lata de cerveja junto à boca. — E depois?
— Eles estavam no quintal, os quatro. As namoradas tinham saído pra comprar mais cerveja. Ainda era cedo, duas e pouco da tarde. Foi nessa hora que, segundo ele, a encheção de saco atingiu um nível insuportável. E os outros perceberam, os outros viram, e é claro que não aliviaram, pelo contrário, aí é que montaram mesmo. Ele estava sentado na beira da piscina, as pernas dentro d’água, outros dois estavam numa mesa que colocaram ali do lado, no gramado, e o dono da casa cuidava da churrasqueira. Quando a coisa engrossou pra valer, ele se levantou, pegou a chave do carro e disse que ia buscar o carregador do celular. Os outros estouraram de rir. Não aguenta mais? Arriou? Vai embora, cuzão? Apelou, perdeu, seu bosta. Ele saiu do quintal com aquela saraivada de asneiras e xingamentos ricocheteando nas costas, saiu pelo portão lateral, foi até o carro estacionado lá fora (de onde ainda ouvia as risadas, mesmo com a música alta), desligou o alarme, abriu a porta, alcançou a arma debaixo do banco do motorista, tirou o pente, checou se estava carregado, recolocou, bateu a porta do carro, acionou o alarme, voltou pelo mesmo caminho e matou os três.
O som de algo se espatifando lá embaixo, na cozinha. Nilson berrou um palavrão. Glória não parecia ter ouvido.
— Acho que esse almoço não vai sair, não.
— Que merda! — o outro parecia furioso lá dentro.
— Ainda bem que eu não gosto de lasanha — Cristiano gritou.
— Pois é o que tem, caralho! — foi a resposta. Nilson nem se deu ao trabalho de aparecer na janela para xingá-lo. Em vez disso, aumentou o volume do rádio. Cristiano gargalhou, depois matou a cerveja. Menos uma. Abaixou-se, colocou a lata vazia no chão, junto com as demais, abriu a caixinha de isopor, pegou outra, abriu e deu mais um gole. Mais uma.
Como se acordasse de um transe, Glória se virou e olhou na direção da cozinha. — Que diabo?…
— Gelada — disse Cristiano, fitando a latinha. — Faz tempo que a senhora parou de fumar?
Ela não ouviu a pergunta; endireitou-se na cadeira, lançou o corpo para a frente e apoiou os cotovelos nos joelhos. — Me diz uma coisa.
— Digo.
— Ele… como é que foi? Ele atirou a esmo?
— Hã? Não, não. Isso é bem louco. Não errou um tiro sequer, o nosso Abner Junior, o nosso Binezim. Quando a mulherada voltou, ele estava sentado no mesmo lugar de antes, na beirada da piscina, as duas perninhas se agitando dentro d’água. Segurava um copo cheio de uísque e, segundo o depoimento delas, abriu um sorriso e reclamou que elas demoraram. Ele jura que essa parte é mentira, mas sem muita convicção, acho.
— E a arma?
— Deixou tudo em cima da mesa, a pistola e a chave do carro. Uma Imbel .380. A arma é legal. Registro, papelada, tudo nos conformes.
— Tudo nos conformes.
— Claro que ele não podia andar com a pistola no carro. O pai jura que não sabia disso, segundo o delegado.
— Tudo nos conformes — ela repetiu, aparvalhada.
— Mas imagina só, as mulheres voltando com mais cervejas e dando de cara com uma cena daquelas. Um corpo ainda sentado à mesa, outro boiando na piscina e o terceiro estendido no chão. Esse que estava sentado mal teve tempo de arregalar os olhos, mal teve tempo de se apavorar, sabe? Binezim entrou pelo portão, apontou a arma e atirou bem no meio da testa. Pou. Nisso, o segundo deu um pulo pra trás, derrubou a cadeira, acho que ia tentar correr, e levou três tiros, barriga, peito, cabeça, pou, pou, pou, e caiu na piscina. O dono da casa já corria pra dentro. Pou, pou: dois tiros nas costas. Caiu a meio metro da porta da cozinha, ainda vivo, se contorcendo. Binezim contornou a mesa, passou pela churrasqueira, chegou bem perto e pou, na cabeça. Os três nem tiveram chance. Ele deu esse último tiro, voltou até a mesa, deixou a arma e a chave do carro lá em cima, serviu uma dose de whisky e se sentou de novo na beira da piscina. As namoradas ainda demoraram um tempinho pra chegar.
— E nenhum vizinho ouviu os tiros? Ninguém? Tem um posto de gasolina perto da casa, pelo amor de Deus.
— Diz o delegado que teve gente que ouviu, sim, mas pensou que fosse outra coisa. Fogos, sei lá. Sempre tem algum otário soltando foguete na cidade, e nem todo mundo consegue diferenciar uma coisa da outra. Quem chamou a polícia foi a namorada dele. Depois que saiu correndo com as outras, claro.
— Por que ele não matou as moças? Ele te falou?
— Bom, ele disse que elas eram meio bocós, foi essa a frase que usou, elas eram meio bocós, mas não eram babacas, e por isso não mereciam levar bala. Ele também falou que não se lembra direito de algumas coisas.
— Tipo?
— Bom, ele diz se lembrar delas chegando, dos berros, da correria, mas não da polícia, de ser levado pra viatura, de chegar à delegacia, de ser interrogado, diz que não se lembra de nada disso. De repente, ele meio que salta da piscina pra cela, da tarde de segunda pra manhã de terça. Tem um buraco entre uma coisa e outra, mas não é… não me parece, pelo menos, que ele queira bancar o surtado, o louco, ou algo do tipo. Até porque se lembra direitinho do que mais importa, né? E em momento algum me pareceu arrependido. Pelo contrário.
— Pelo contrário?
— Ele disse que a cabeça do primeiro ricocheteou bonito demais.
— Hein?
— Assim mesmo, com essas palavras.
— Mas que…
— Ele até imitou o tranco e ilustrou com a mão o ferimento de saída, sabe? — Cristiano tomou um gole de cerveja, colocou a latinha no chão, ao lado das vazias, endireitou o corpo, levou a mão direita fechada até a parte de trás da cabeça e, apoiando-a na nuca, fez com que ela abrisse para trás, como se imitasse o desabrochar de alguma coisa. — Assim, ó. Pou.
Glória atirou longe a latinha que segurava (não estava inteiramente vazia), depois se abaixou para pegar outra da caixa de isopor, mas desistiu, endireitou o corpo e balançou a cabeça, fitando um ponto qualquer no chão. — Qual é a idade dele mesmo?
— Vinte e dois aninhos.
— Eu não conheço as famílias muito bem, não. Quer dizer, as famílias dos… nenhum deles estudou no Instituto, não foram meus… Acho que seu pai, ele… bom, Lázaro conhecia tudo mundo.
Nilson assomou à porta da cozinha e gritou alguma coisa sobre o almoço. O rádio transmitia uma sucessão de canções sertanejas que, àquela distância, pareciam a Cristiano um só emaranhado ruidoso. Glória levantou a mão esquerda e, sem olhar para trás, fez sinal de positivo. Ainda estava com o olhar perdido em algum ponto no chão, perto do pé direito de Cristiano. Não havia nada ali. Inseto, folha, graveto. Nada. Exceto terra.
— Não sei se estou com fome — disse ele, mais para si mesmo.
Ela apontou com o queixo para a caixinha de isopor. — Ainda tem meia dúzia de cerveja aí dentro.
Sobre o que papear após destrinchar um triplo homicídio? A mangueira se agitava com o vento, o sol de passagem mais uma vez. Olá, tchau. Cristiano fechou os olhos. Um cheiro forte desde o chiqueiro. Sangue, lavagem, terra, bosta. Sim, de passagem: o vento mudou de direção, entortando os galhos mais altos, e as nuvens o encobriram mais uma vez. Estalos. Folhagem correndo. Era bom ficar ali com a tia, matando a manhã de sábado bem devagar. Matando. Era bom. Glória se interessava pelas mínimas coisas que ele fazia desde quando abrira o escritório na cidade, como se cada ação de divórcio, cada inventário, cada questiúncula — o feijão-com-arroz de qualquer advogado que viva e trabalhe em um município de vinte mil habitantes — lhe dissesse respeito. O interesse aumentara desde a morte de Lázaro. Seria consciente? Lázaro feliz com a mudança, ótimo que o filho enfim se dedicasse à advocacia após todos aqueles anos enfronhado não exatamente na política, mas em seus arredores e antessalas penumbrosos, trabalhando como tarefeiro para um cacique goiano. Lázaro morreu feliz. Olhou para a tia. Ela pensava um pouco diferente, não? Não o julgava pelo que fazia antes, isto é, não o julgava mal, não o condenava, e sabia (mesmo sem conhecer os detalhes) que, quatro anos antes, ele não tivera escolha, que suas ações e escolhas acabaram por empurrá-lo de volta à cidade e à família, sem que pudesse fazer muito a respeito. Todo mundo faz merda, dissera a ele na ocasião. Uma espécie de foragido. Não pelo que fizera, quem se importava?, caso arquivado havia anos, mas por outras coisas mais profundas e, ao mesmo tempo, não. Simone, por exemplo. Meia-irmã: meio pecado (ela brincava). Um apartamento alugado na Avenida Independência, a poucos metros da Praça da Bíblia, apenas para encontrá-la sempre que possível. Simone. Casamento marcado, escritório de arquitetura, vida montada, mobiliada, encerada, organizada, mas ainda à disposição, ainda disposta (sempre que possível). Como seria não viver assim? Ou viver sem isso? Ele não saberia dizer, e ainda não estava interessado em descobrir, mas olhava para a tia, para a vida tranquila que ela levava com Nilson, e sentia um nó na garganta. Nilson comprara a chácara ao se aposentar, uns três anos antes, e Glória se mudara antes mesmo do casamento, deixando a casa na cidade para o sobrinho. A casa que pertencera ao avô paterno de Cristiano, o velho Chico Boa Foda, e depois a Lázaro; a casa na qual a avó, Donana, morrera em um acidente bobo, escorregando e batendo a cabeça na quina do tanque, quando Cristiano ainda estava na barriga da mãe, Maria; a casa na qual Glória vivera a maior parte da vida, sozinha com seus livros e cigarros. Quando Lázaro morreu, e porque Glória já havia desocupado a casa, Cristiano não teve dúvidas sobre onde moraria. Sozinho. Indo a Goiânia uma vez por semana para se encontrar com Simone, ensaiar uma vida que jamais teriam de fato. Há quem não tenha sorte. Há quem tenha. Quanto tempo Glória e Nilson não demoraram para se encontrar ou, na verdade, reencontrar? Até onde Cristiano sabia, eles namoraram por alguns meses no final dos anos oitenta, quando Nilson era delegado em Silvânia, terminaram sabe-se lá por quê, ele foi transferido para Goiânia tempos depois e só voltou ao interior após se aposentar. Comprou a chácara, acomodou-se e, num dia qualquer, levando uma garrafa de uísque, bateu à porta da casa na rua Senador Canedo e, quando Glória atendeu, abriu um sorriso e disse, achei que era hora de fazer uma visita. Poucos meses depois, já viviam sob o mesmo teto. Uma história bonita. Jamais teria algo parecido com Simone. Jamais poderia ter. Com outra pessoa, então? Quem? Quando? Eventualmente. Com sorte. E agora a sortuda Glória estava com os olhos arregalados, o corpo meio de lado; Nilson terminava de gritar alguma coisa da janela da cozinha.
— Que foi?
— Puta merda — disse ela.
— O quê?
— Você não ouviu?
— O quê?
— Falaram no rádio.
— Falaram o quê?
Olhou para o sobrinho. — Que o desgraçado morreu.
— Quem?
— Abner. Quem mais?
— Morreu?
— Parece que se enforcou na cela.
Cristiano ficou um tempinho encarando Glória, a expressão estupidificada dela, depois olhou para baixo, para a janela da cozinha na qual Nilson aparecera para dar a notícia, aparecera e já desaparecera, o rádio mais uma vez tonitruando uma balada sertaneja, e por um segundo, sem nenhuma razão aparente, a janela vazia remeteu àquela no Vaticano, Praça de São Pedro, a multidão à espera da benção papal ou coisa parecida, será um lance diário, semanal? Ora, que diferença faz? Fosse como fosse, Nilson não estava mais à vista, o papa estava bem longe e não havia mais nada que Cristiano pudesse fazer pelo cliente. Então, Glória começou a dizer alguma coisa, mas foi interrompida pela gargalhada que o sobrinho engendrou de repente, do nada, ríspida e urgente, jogando a cabeça para trás, derrubando um pouco de cerveja nas calças, o riso irrefreado, de quem parece ter vindo ao mundo só para isso, para rir dessa maneira, em tais circunstâncias. Ela balançou a cabeça, incrédula, depois se abaixou e, dessa vez, pegou outra cerveja. Minutos depois, quando Nilson gritou que o almoço estava pronto, Cristiano ainda não estava com fome.