“Ora, são animais formidáveis.”

[W.I.P.]

Basquiat

— Política — disse uma das mulheres, a mais velha, e sua voz ciciante se confundiu com o farfalhar do jornal que dobrava com todo o cuidado, caderno por caderno, as folhas espalhadas na cadeira ao lado pouco a pouco reordenadas e encaixadas e colocadas a um canto da mesa, junto ao copo com um restinho de conhaque. Sentado à mesa vizinha, Américo ouvia a conversa das duas desde que chegara ali, meia hora antes.
— Quando foi que o Brasil não fodeu com a gente? — disse a outra, uns vinte ou vinte e cinco anos mais nova do que a primeira, a voz esganiçada raspando o ambiente feito uma lixa; falava de forma displicente, como se não prestasse atenção ou não tivesse nada a ver com o que saía da própria boca.
— Houve um tempo.
— Ah, é? Quando?
— Houve um tempo — a velha repetiu e terminou de encaixar o último caderno, e então, virando-se meio de lado, pegou o jornal, colocou-o na cadeira vizinha, puxou o primeiro caderno, abriu e começou a percorrer a primeira página com os olhos, atenta.
— Vai ler tudo outra vez?
— Eu só folheei e dei uma olhada assim pelo alto. Agora vou ler o que me interessa.
— Ah. É o seu processo?
— Tudo é um processo.
A mais nova suspirou, depois olhou para o celular que estava sobre a mesa. — Que horas é o voo mesmo?
— É a quinta vez que você me pergunta isso.
— E é a oitava vez que eu esqueço. A senhora está no lucro.
— Às nove.
— Às nove.
— Eu não sei se entendi esse editorial — ela agora encarava a segunda página.
— Quem se importa com editoriais?
— Eu me importo com editoriais.
— Bom, nesse caso…
— É sobre as eleições, claro. Em cima do muro.
— Melhor subir no muro que no telhado.
— Quem disse?
Moi.
— A propósito, em quem você votou no domingo?
— Eu anulei.
— Eu jamais anularia o meu voto.
— Quem foi mesmo que levou o coice? Acho que é a única coisa que eu vou me lembrar dessas eleições.
— O vice-presidente eleito.
— Mas ele não morreu, certo?
— Não, se foi eleito…
— Aleijado?
— Não, não. Ainda está hospitalizado, mas inteiro.
Alguém aumentara o volume do som ambiente, mas não ao ponto de atrapalhar a conversa. Além das duas mulheres e de Américo, só havia um casal de idosos no lugar, sentado ao balcão, cada qual concentrado em seu respectivo celular. Volta e meia um deles estendia o telefone e mostrava algo para o outro, ambos riam, trocavam comentários ligeiros em alemão e voltavam à posição original.
— Que tara é essa que militar tem por cavalo? — perguntou a mais nova, os olhos perdidos na direção do balcão.
— Ora, são animais formidáveis.
— Os militares?
Uma risada discreta, seguida por mais um longo intervalo farfalhante. Chegava ao final do segundo caderno. — Putin.
— Palmirinha — disse a outra, e tomou mais um gole.
Américo estava de costas para a mesa em que elas se encontravam, mas via as duas mulheres pelo reflexo no enorme espelho que tomava a parede à frente. E, claro, via a si mesmo: palidez ressaltada pelos óculos escuros, cabelos desgrenhados, terno amarfanhado. Era o oposto de suas vizinhas: alinhadas, impecáveis. A mais velha era pequena, mas sólida, os cabelos brancos e curtos penteados de lado, e usava um tailleur de uma cor que ele não saberia nomear; índigo? A outra, de camisa branca e blazer verde-escuro, cabelos pretos e cacheados, era rechonchuda e mantinha aquela expressão desligada, talvez por efeito do vinho; elas pareciam estar ali há algum tempo. Era muito bonita, a mais nova, grandalhona, o tipo de quarentona endinheirada que, solteira ou divorciada, parecia ter descoberto (felizmente a tempo) que não devia satisfações a absolutamente ninguém. A ela bastou observar Américo por menos de dois segundos, quando ele entrou no lugar, para farejar a derrota e ejetá-lo de seu campo de interesse. Você, não. Próximo.
— Se ele tivesse morrido — disse ela, ainda se referindo ao vice-presidente eleito —, o cavalo talvez pudesse assumir no lugar dele.
A velha concordou com um sorriso. — Incitatus.
— Oi?
— Incitatus. Calígula nomeou o próprio cavalo senador. Ou quis fazer dele um cônsul. Ou as duas coisas, não me lembro.
— Não me venha com Calígula numa hora dessas, tia.
— E a sua geração sabe quem foi Calígula?
— Bom, a minha geração viu o filme.
— Que film… ah, mas que…
As duas riram mais alto dessa vez. Ele também vira o filme, muitos anos antes, e sorriu, baixando a cabeça. Qual era mesmo o nome daquele ator? Não era o cara que estava em M.A.S.H.? Não, não, aquele era o pai do Jack Bauer.
— … e a minha mãe quase flagrou a gente vendo aquela coisa.
— Vou lhe contar um segredo: ela sabia o que vocês estavam fazendo, só não quis constrangê-los.
— Boa mulher.
— Sonhei com ela na noite passada.
— Eu quero saber?
— Não foi nada demais.
— É que seus sonhos são sempre…
— Eu e ela estávamos em Brasília.
— Isso é engraçado, sempre que eu sonho com ela, também estamos em Brasília. Será que é porque foi enterrada lá?
— Como assim?
— Talvez a pessoa não possa se afastar do corpo nem depois de morrer. Tem que ficar mais ou menos na mesma área.
— Por que a pessoa não poderia se afastar do corpo? Pelo que dizem, morrer não se trata exatamente disso?
— Pelo que dizem? — soltou uma risadinha.
— Que ideia horrível. Eu quero distância dessa carcaça depois que morrer. Ela que apodreça bem longe de mim.
— Amém.
— Mas, se for o caso, se for como você está dizendo, a gente vai exumar a sua mãe assim que possível e enterrar em outra cidade. Imagina só, não poder sair de Brasília nem depois de morrer.
— A senhora sabe que ela adorava Brasília, tia.
— A cidade estava em ruínas.
— Oi?
— No meu sonho. Eu estava falando do sonho que tive, lembra?
— Lembro. Acho que vou pedir outra taça de vinho.
— Por que não pede logo a garrafa?
— Quem bombardeou a cidade?
— Como é que eu vou saber? Só sei que eu e sua mãe estávamos lá.
— E o que estavam fazendo?
— Nós andávamos pelas ruínas. Não se via mais ninguém. Estávamos bem assustadas.
— Mas procuravam por alguém?
— Não me lembro. Depois eu estava dentro de um prédio, acho que no Setor Comercial Sul, e olhava pela janela. Aquele prédio defronte ao shopping, sabe? Era um cômodo pequeno, uma dessas salas apertadas e… vazava água pelas paredes, lembro bem disso.
— E a minha mãe?
— Ela não estava mais comigo, e isso me angustiava. Eu sentia medo por estar sozinha ali dentro, mas não tinha coragem de sair. Então vi a sua mãe lá fora, atravessando a W3. A rua estava destruída, cheia de entulhos, imunda. Comecei a bater na janela, a acenar, mas sua mãe não olhava na minha direção. Acho que procurava por mim, não sei. Parecia perdida. Eu tentava gritar, mas a voz não saía. Ela ficou parada ao lado da carcaça de um carro, no meio da rua. Uma sirene começou a tocar.
— E depois?
— O sonho virou outra coisa.
— O quê?
— Bem, eu só me lembro de estar na fazenda, no alpendre. Sentada no chão feito uma criança, mas com a idade que eu tenho hoje. Meu avô se aproximou e afagou a minha cabeça, depois olhou para fora e seu rosto adquiriu uma expressão de espanto. Eu me levantei e olhei também. Tudo tinha desaparecido. A plantação, a estrada, as árvores, tudo. A região ao redor, toda ela, era um descampado, um ermo. Não se via nada. Meu avô olhou para mim e abriu um sorriso sem graça, como se estivesse envergonhado por algum motivo, como se me pedisse desculpas por eu ter de ver aquilo. Então, aquela sirene voltou a tocar. Meu avô enfiou a mão no bolso e eu achei que ele fosse pegar umas balinhas, ele sempre dava balinhas para nós quando éramos pequenas, andava com os bolsos cheios delas. Senti vontade de dizer a ele que não queria, que não era mais criança, que tenho mais idade agora do que ele quando morreu. Mas, ao mesmo tempo, eu não queria que ele ficasse chateado. Então, estendi as duas mãos como sempre fazia e esperei. Ele ainda sorria daquele jeito sem graça quando tirou a mão do bolso e colocou alguma coisa nas minhas palmas. Eu olhei e era um dente.
— Um dente humano?
— Sim. Um molar. Meu avô fez aquele gesto para que eu colocasse na boca, como fazia com as balinhas. Ele sempre fazia isso, dava as balinhas e fazia esse gesto para que a gente desembrulhasse e colocasse logo na boca. Eu não queria, mas ele insistiu, fechou a cara, vamos, menina, põe isso na boca, anda logo.
— A senhora colocou?
— Acho que sim.
— Como assim, acha?
— Bem, eu comecei a levar a mão até a boca. Devagarinho, porque sentia muito nojo, mas acordei antes e…
— Então não colocou.
— Não, mas eu sinto como se tivesse colocado, sabe? Mesmo tendo acordado um milésimo de segundo antes de efetivamente colocar.
As duas se calaram. A mais nova bebeu um gole de vinho, a taça quase vazia, e se lembrou de acenar para o garçom. A velha voltou a se concentrar no jornal. Ele ajeitou os óculos escuros e olhou para o copo de cerveja ainda pela metade. Precisava sair dali. Precisava subir para o quarto. O celular descarregado no bolso do paletó. Isabel provavelmente estaria preocupada.
— Não sei o que esperar dessa mulher — disse a velha, olhos no jornal.
— Que mulher?
— Essa que elegeram.
— Eu espero sempre o pior, dela e de todos os outros.
Um bocejo. — É uma boa estratégia.
— Política — resmungou a mais nova e, vendo a taça vazia, voltou a acenar para o garçom.
Foi a deixa para que ele virasse o copo de cerveja e se levantasse. Quando passou pela mesa delas, a velha levantou os olhos do jornal e franziu o cenho ao reconhecê-lo. Américo quase parou para cumprimentá-las, mas lembrou que a campanha já havia acabado, que tudo havia acabado, e se limitou a piscar o olho direito em resposta. Foi só um minuto depois, ao entrar no elevador, é que se deu conta da estupidez do gesto: ainda estava de óculos escuros.