F for

Tomo emprestado o poema da Maira (transcrito abaixo) para dizer FODA-SE 2019, quando em Brasília se inicia um desgoverno que rescende a merthiolate & merda e aqui na Mooca eu inicio a escrita de um romance gloriosamente raivoso, um romance projetado para envenenar desde as raízes essa goiabeira onde se dependuram surtados & descompensados e a fé deixa de ser o signo de algo inexprimível, alcançável somente pelo ensimesmamento silencioso, para se tornar a bandeira de uma matilha de histéricos, oportunistas, boçais, cagões, corruptores e corrompidos. Não há nada nessa gente que aponte para qualquer transcendência efetiva, transcendência ancorada na imanência e, portanto, no outro; não há nada neles que não diga respeito a uma doença anímica, que não remeta à metástase final do nosso cancro republicano, que não exemplifique a insânia do cristianismo depauperado que desde sempre escarifica este país e agora intenta apodrecê-lo de vez, enquanto berra aos quatro ventos o nome do Cadáver. A verdade é que o nome de D’us é um continente tão estranho e desconhecido para esses cretinos quanto o nome do outro. Exumemos, pois, o cadáver do nomeado messias: seus restos estão na escuridade do sepulcro, no qual foi abandonado por seus seguidores e de onde jamais saiu; morto, ele ignora o céu para o qual nunca ascendeu; na pedra fria, jaz anônimo e surdo para as súplicas de outros tantos defuntos; a cada três linhas que escrever, uma será dedicada à morte da sua alma.

Lepanto

RAM
Maira Parula

(Slam poetry)

Foda-se História Social da Arte e da Literatura.
Fodam-se Harry Potter, Grimm, Walt Disney.
Fodam-se Dostoiévski, Tolstói, Maiakóvski.
Fodam-se Flor do Lácio, Sambódromo.
Fodam-se Mário, Oswald e Carlos.
Foda-se o Pessoa na pessoa.
Maeterlinck no Debussy.
Fodam-se Hamlet, Macbeth, Bruce Wayne.
Fodam-se Sigmund e Lucian.
Foda-se Augusto Frederico Schmidt.
Fodam-se os sonhos intranquilos de Gregor.
Foda-se García Lorca.
Foda-se T.S. Eliot.
Fodam-se Queijos Franceses, Nova York, O Processo Civilizador.
Fodam-se João Cabral e o Melo Neto.
Foda-se o Lautréamont do Dylan Thomas.
O Dylan Thomas do Bob Zimmerman.
Fodam-se Janeiro, Fevereiro e Março.
Descartes: foda-se o Corcovado.
Foda-se Câmara Cascudo.
A Construção do Livro. A Cura pelas Pedras.
Os Diários de Sylvia Plath.
As Conversações de Deleuze.
A Conferência de Bretton Woods.
Fodam-se os Beach Boys, os Chicago Boys.
Fodam-se Abraão, Mateus, a tradução do rei Jaime.
Fodam-se Macintosh, Haxixe, Paul Verlaine.
Foda-se terra plana, terra redonda, terra quadrada.
Foda-se das Kapital.
Foda-se mein Kampf.
Fodam-se Blanchot, Bardot, Todorov.
Lispector, Swift e Riefenstahl.
Dietrich e os Sete Nibelungos.
Foda-se Gaius Valerius Catullus.
Pedicabo ego vos et irrumabo.
Foda-se Homero.
I Ching.
Mahabharata.
Jimmy Joyce e Pixinguinha.
Foda-se Thomas Mann.
Foda-se L’église des temps barbares.
Foda-se Irvine Welsh.
Foda-se The Story of the Irish Race.
Foda-se por quem sempre o Tejo chora.
Foda-se Kipling.
Lêdo Ivo e Oppenheimer.
Fodam-se Taxi Driver, Amélie Poulain.
Yamaha, Suzuki, Kurosawa.
Foda-se Marcel Proust.
Star Wars, Ronald Reagan, Scooby-Doo.
Foda-se derradeiro ra ra ra, verdadeiro ra ra ra.
Foda-se se lá passar a Lusitana gente.
O ondulado das sebes.
A árvore colérica.
Rimbaud.
Mallarmé.
Rilke rilkeing Rilke.
L’autre moi.
Foda-se.

…………