Diferença e repetição

“Os porcos lavam-se na lama, as aves rasteiras no pó.”
— Heráclito

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Muitos opositores do sr. Bolsonaro vociferam contra o que identificam como “fascismo”, embora o candidato em questão e suas vísceras expostas estejam mais próximos de um pontiagudo neointegralismo. É comum encarar o (neo)integralismo como um epifenômeno do fascismo, mas não acredito que o sr. Plínio Salgado sobreviveria a um clima mais temperado — com os diabos, ele sequer sobreviveu aos nossos ares tropicais, às intempéries da mata atlântica getulista, certo? O sr. Bolsonaro é um sintoma do mesmo surto, pois, no Brasil, a História só se repete como doença. Ele ataca o gramscianismo corrompido que inflama os fígados de lulistas, marinistas etc. e acena com uma contraideologia que mistura um suposto liberalismo chicagoense, o positivismo ferruginoso que fazia o cavalo do General Figueiredo sorrir e a tibieza católica, nossa velha conhecida.

Um dos sintomas da doença especificamente bolsonarista é o acesso de (pseudo)nacionalismo. Sob a ponte do Brasil Grande corre um ribeirão de sangue, e não é que seus defensores — do “novo” Brasil Grande — ignorem isso. Pelo contrário. O prefixo entre parênteses é um índice da raivosa cegueira coletiva que intenta colorir e adensar aquela água: perverter a ideia de nação e tudo o que ela traz a reboque é um meio para o fim cujo sentido maior, (pseudo)escatológico, passa justamente pela obliteração das diferenças que constituem ou deveriam constituir uma nação. Chame um neointegralista de fascista e observe-o sorrir.

o sr. Luiz Inácio se coloca historicamente como uma gritante exceção, o ponto fora da curva capaz de sublinhar a própria excepcionalidade, contraposta à imundície ordinária dos outros (direitistas, elitistas, golpistas, fascistas). Quando de sua prisão, testemunhou-se um holocausto, isto é, um sacrifício em que o animal em questão (e muitos já disseram que o sr. Luiz Inácio é um autêntico “animal político”) foi “queimado por inteiro”. Idealmente inalcançável, ele se coloca em um “lugar não-lugar”, pois está na História (como exceção) e fora dela (para se ver e se colocar como exceção). É evidente que o sr. Bolsonaro está a anos-luz de tamanha sofisticação.

Enquanto o bolsonarismo age disentericamente, ressecando e devastando (e isso é irônico, dadas as circunstâncias) as vísceras dos enfermos, o lulismo é algo como uma doença de Chagas republicana, em que a inflamação do coração (miocardite) e/ou do cérebro (meningoencefalite) conduz a uma espécie de pseudoiluminação — só Lula salva, creem os corações inchados dos fiéis, e tal certeza os leva a ocupar seu quinhão naquele “lugar não-lugar”, comungando da falsa excepcionalidade do pretenso salvador.

Das obviedades: há sempre um elemento messiânico nesses “ismos”. Imagens de um Cristo ariano estendendo a mão para o combalido sr. Bolsonaro circularam pelas redes sociais após o atentado sofrido pelo candidato. Um Jesus loiro e de olhos claros: poucas coisas são mais kitsch e racistas, como se o Levante fosse um enclave escandinavo. Mais sofisticado, o lulismo criou a sua própria iconografia. Vide as imagens do sr. Luiz Inácio em meio à multidão que cercava o Sindicato dos Metalúrgicos, quando daquela prisão ou, melhor dizendo, rendição espetaculosa — abril, mês sempre tão cruel.

Se, aos olhos dos discípulos, o sr. Luiz Inácio é uma espécie de Cristo de Pasolini, a meu ver o sr. Bolsonaro estaria mais para um Moisés corrompido e sem bússola, condenado a vagar e vagar sem fazer ideia de onde fica o Mar Vermelho; mesmo que o encontrasse, suas águas não se abririam. Os sinais de sua confusão são inúmeros, e, contrariamente ao que ocorre com o sr. Luiz Inácio, o que o marca enquanto personagem não é a autoproclamada excepcionalidade, mas uma ensurdecedora e apavorante mediocridade. O sr. Bolsonaro é o taxista homofóbico, a bancária racista, o dentista misógino, é toda essa massa orgulhosa da própria ignorância, animada pela raiva de tudo o que lhe parece estranho, “diferente”.

O sr. Luiz Inácio sabe muito bem que a democracia é um sintoma intermitente da nossa doença republicana, doença que ele conhece como poucos, com a qual se identifica e que aprendeu a controlar, ao menos (e a essa altura) entre os seus. O sr. Bolsonaro também percebe ou pressente a democracia em termos similares, mas nele existe o impulso erradicador, a noção de que “já deu”, e o “autogolpe” referido por seu companheiro de chapa é apenas mais uma das contradições insustentáveis que constituem seu projeto de poder: ser eleito para que ninguém mais o seja.

Há muito ainda o que se pensar e escrever sobre como diversos aspectos do lulismo alimentaram as cisões da chamada Nova República e ajudaram a espalhar a doença bolsonarista. O lulismo (em sua faceta dilmista) é o responsável pelo desastre econômico ainda em curso e por certo contribuiu para a poluição ambiental e o recrudescimento da enfermidade e o que ela tem de específico. Claro, o esgoto que ora nos adoece começou a ser alimentado muito tempo atrás, e nele se veem dejetos de todos os períodos republicanos. A faca que entrou no bucho do sr. Bolsonaro foi banhada nessa sujeira, e todos nós, de uma forma ou de outra, ajudamos e empurrá-la. Não surpreende que a lâmina esteja agora apontada para as nossas gargantas.

Em sendo assim, há que se desconfiar dos que, a exemplo do salvador agrilhoado, colocam-se como vítimas e/ou se veem à margem dessa pestilência. O lulismo como o último bastião da democracia é uma ideia que oscila entre a ingenuidade (dos crentes) e a canalhice (dos pregadores), pois pressupõe um descolamento do estado de coisas que ele próprio ajudou a fomentar. O que persiste é a necessidade de alimentar a narrativa do “golpe”, de traçar uma trêmula linha no chão e, ironicamente, a exemplo dos neointegralistas, urrar: “ou nós, ou a escuridão”. É o tipo de discurso que o sr. Luiz Inácio sempre alimentou e patrocinou: ou você está com Lula, ou está contra o povo; ou está com Lula, ou está com os “fascistas”. E isso o sr. Bolsonaro aprendeu muito bem, pois, similarmente, ou você está com o “mito”, ou está do lado dos “comunistas”; ou apoia o resgate do Brasil e dos “valores” familiares, ou quer transformar o país em uma Venezuela licenciosa e gonorréica.

Os lulistas afirmam e reafirmam a ocorrência de um desvio, que (por exemplo) o impeachment da sra. Rousseff equivaleria a uma expulsão do Éden, a uma Queda, o que é de um ridículo escorchante. Os bolsonaristas afirmam e reafirmam a necessidade de um desvio, de uma ruptura que anule a forma como as coisas são feitas e instaure novos meios, novos métodos, o que é de um ridículo não só escorchante, mas impraticável — mesmo que incorra no “autogolpe”, o sr. Bolsonaro jamais estará sozinho e ainda terá de lidar com alguma casta de “notáveis” corrompida e corruptora. Cada ditadura tem a ARENA que merece.

Em um ambiente imunologicamente deficitário como o nosso, o estado de enfermidade é uma constante. Algumas doenças são mais graves, outras menos, mas todas vicejam no mesmo ambiente. O fato é que, no Brasil, contrariando a máxima heraclitiana, entramos sempre no mesmo rio, noite após noite, enquanto o nevoeiro se adensa e as margens desaparecem.