“Eufrates”

Capa (frente)

Em novembro de 2017, coloquei o ponto final em Eufrates, meu sexto romance, e enviei os originais para a editora José Olympio. No momento, o livro já se encontra em produção, isto é, diagramação, revisão das provas, a capa (como se poder ver acima) já foi definida, e a previsão é de que chegue às livrarias ainda neste mês de abril.

É um romance relativamente longo, com várias histórias correndo paralelas, dispersas no tempo, desde (mais ou menos) 1991 até o ano de 2013, e em várias cidades (São Paulo, Brasília, Buenos Aires, Haifa, Jerusalém, Belém do Pará). Ou seja, é estruturalmente parecido com Terra de casas vazias, livro que lancei (pela Rocco) em 2013.

Eufrates acompanha dois protagonistas (e alguns de seus familiares e amigos e companheiras). Há algo do Brasil ali, é claro, do segundo governo Fernando Henrique Cardoso e também (e bem mais) dos protestos de 2013, por exemplo (aludidos em diálogos importantes entre alguns personagens, mantidos no calor do momento), até porque seria complicado situar uma narrativa em tais e tais dias sem aludir, ainda que marginalmente, ao que acontecia ao nível da rua. A propósito, no que diz respeito a 2013, acho exemplar a maneira como Bernardo Ajzenberg passeia pelo asfalto em seu Gostar de Ostras (Rocco, 2017): sem panfletagem, sem proselitismo, sem engajamento pueril, apenas com e por seus personagens, pois (querendo ou não, de uma forma ou de outra) a história sempre passa por todos e cada um de nós. É mais ou menos isso que procurei fazer. O que sempre procuro fazer, aliás.

Em tempos tão complicados, nos quais há uma exigência raivosa por “posicionamento”, acredito que a literatura deve dar um ou mais passos para trás, respirar fundo e (se e quando possível) procurar ver as coisas a uma distância saudável e com os olhos menos injetados. Ademais, poucas coisas são tão ruins quanto livros “engajados”, panfletários, em que há, disfarçado ou não, um conteúdo doutrinador, programático e ideologicamente metastático. Não faço esse tipo de coisa. Nunca fiz, nunca farei. Porque (dentre outras coisas) tenho a pretensão (débil? ingênua? foda-se) de que meus livros sobrevivam aos nossos dias, sobrevivam a mim e a você, sobrevivam à crise da vez e, de uma forma ou de outra, digam algo sobre o nosso tempo para além da gritaria hodierna e generalizada.

“Não existe literatura engajada”, escreve Hubert Fichte em Explosão. Em um texto literário, grosso modo, o único engajamento possível é estético; havendo um esforço noutra direção, com outras intenções (e quanto mais “nobres” forem as intenções, pior), o texto devora a si mesmo e regurgita outra espécie de monstruosidade. O texto literário é o objeto utópico por excelência, na medida em que configura (a priori?) um não-lugar. Situá-lo é o que, mal ou bem, faz cada leitor, conforme a posição (ontológica, deontológica, política, religiosa, psicótica) que assume ao se abrir (ou se fechar) para ele.

Assim, meus personagens andam por aí, conversam, trabalham, apaixonam-se, desapaixonam-se, viajam, bebem, brigam, adoecem, reconciliam-se, morrem, às vezes olham através da janela, às vezes para o chão, para o céu, às vezes fecham os olhos. São pessoas comuns, ordinárias, com dramas comuns, ordinários, até porque, em se tratando do Brasil, as pessoas ditas ou (o que é mais comum) autoproclamadas extraordinárias são, em geral, histéricas, psicopatas, criminosas, e já mordisquei o meu quinhão disso em Terra de casas vazias e Abaixo do Paraíso.

Não sei vocês, mas, nos dias que correm, eu preciso da convivência de pessoas comuns, ordinárias, ainda que ficcionais. Eufrates é (também) um esforço nesse sentido.

P.S.: O trecho publicado pelo Blog do IMS foi extirpado do romance. Era o início de uma das muitas histórias que correm paralelas, mas ela parecia por demais descolada (temática e estilisticamente) do restante do livro — além de engordá-lo em quase duzentas páginas — e eu achei melhor arrancá-la na revisão final. Gosto bastante dessa parte que cortei, e talvez ela se sustente como uma narrativa autônoma, mais ou menos do tamanho e explorando os mesmos temas (e alguns dos personagens) de Abaixo do Paraíso. Não sei. Pensarei a respeito no futuro.