Na beira do “Eufrates”

Eufra

Coloquei o ponto final em Eufrates, meu sexto romance, e enviei os originais para a editora José Olympio na semana passada. A previsão é que o livro seja lançado em meados de 2018.

É um romance relativamente longo, com várias histórias correndo assim paralelas, dispersas no tempo (~1991-2013) e em várias cidades (São Paulo, Brasília, Buenos Aires, Haifa, Jerusalém, Belém do Pará). Ou seja, é estruturalmente parecido com Terra de casas vazias.

Mas, à diferença dos anteriores, o novo romance não teve um desenvolvimento linear. Há trechos dele que vieram à luz uma década atrás, e que vim reescrevendo aqui e ali, quando não trabalhava em outras coisas. Até publiquei alguns desses trechos como se fossem contos, neste espaço e em outros lugares (por ex., nas revistas Pessoa e Histórias Possíveis). Em alguns casos, eu achava mesmo que eram contos e só depois é que fui levado a inclui-los em uma narrativa maior, às vezes por iniciativa própria, às vezes porque amigos — como o Martim — me sugeriam isso.

Eufrates acompanha dois protagonistas (e alguns de seus familiares e amigos e companheiras). Há algo do Brasil ali, do segundo FHC e dos protestos de 2013, por exemplo, mas apenas porque seria complicado situar uma narrativa em tais e tais dias sem aludir, ainda que marginalmente, ao que acontecia ao nível da rua (nesse sentido, e no que diz respeito a 2013, acho exemplar a maneira como Bernardo Ajzenberg passeia pelo asfalto em Gostar de Ostras: sem panfletagem, sem empostação, sem proselitismo, sem engajamento pueril, apenas com & por seus personagens).

Meus personagens andam por aí, conversam, trabalham, apaixonam-se, conversam, desapaixonam-se, viajam, trepam, conversam mais, bebem, brigam, adoecem, reconciliam-se, morrem, às vezes olham através da janela, às vezes olham para o chão, para o céu, às vezes fecham os olhos. São pessoas comuns, ordinárias, com dramas comuns, ordinários, até porque, em se tratando de Brasil, as pessoas ditas ou autoproclamadas extraordinárias são, em geral, histéricas, psicopatas, criminosas, e eu já mordisquei o meu quinhão disso em Terra de casas vazias (um pouco) e Abaixo do Paraíso (bastante). Não sei vocês, mas, nos dias que correm, eu preciso da convivência de pessoas comuns, ordinárias, ainda que ficcionais.

Ah, sim: o trecho publicado pelo Blog do IMS foi extirpado do romance. Era o início de uma das muitas histórias que correm paralelas, mas ela parecia por demais descolada (temática e estilisticamente) do restante do livro — além de engordá-lo em quase duzentas páginas — e eu achei melhor arrancá-la na revisão final. Gosto bastante dessa parte que cortei, e talvez ela se sustente como uma narrativa autônoma, mais ou menos do tamanho e explorando os mesmos temas (e alguns dos personagens) de Abaixo do Paraíso. Não sei. Pensarei a respeito no futuro.

O momento agora é de navegar pelo Eufrates. Volto a escrever sobre ele quando tiver novidades (capa, orelhas, data de lançamento etc.). Agradeço desde já à minha agente, Marianna Teixeira Soares, pelo empenho, e ao editor Carlos Andreazza, que confiou em meu trabalho e contratou o livro meses antes que ele estivesse pronto, e sem ler uma linha sequer do mesmo.