Conexões

Berardinelli toca na ferida da discussão que ronda os dilemas de quem prefere fazer Filosofia ou literatura por meio de um método de perfeição técnica que, na realidade, é uma covardia diante do pesadelo do paradoxo. Se quisermos complementar o que ele escreveu anteriormente, ‘os clássicos’ não foram apenas ‘escritos para um público de leitores’, indo contra as pretensões de ‘um conventículo de estudiosos’, mas sim foram concebidos como um ato pleno de amor e de generosidade, independentemente do caráter psíquico do artista ou do pensador. Eis aqui a fonte da Filosofia que Platão e Aristóteles tanto falavam a respeito – e é com amor e generosidade que eles devem ser lidos. Quem for contra esse método primordial, que sustenta todas as técnicas posteriores e alimenta as críticas futuras, simplesmente mata a imaginação dentro de si – e destrói o indivíduo completo que você poderia ser.

Martim Vasques da Cunha,
na terceira parte d’O Caos Arcaico.

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Mas há aí um pressuposto meu. A noção equivocada ou ingênua de mimesis por parte de tantos outros escritores. Ao se recusar a descer do degrau do picaresco, mesmo no pseudo-memorial Ravelstein, Bellow evita tomar a descrição da aparência como a representação da realidade. Isso é ainda mais evidente em Pynchon e seus nomes, conceitos, metáforas e tramas rocambolescas e narrativa labiríntica. Ele não se ocupa da aparência, no sentido de verossímil canônico, a aparência está lá sendo catalogada pelo narrador e arranhada ou suportada sisificamente pelos personagens.
A realidade está nos processos internos, escondidos, naquilo que cria a aparência. E buscar reproduzir a aparência da realidade sem procedimentos como os de Bellow e de Pynchon é em grande parte se recusar a entrar no real.

Marcelo Ferlin, em Pynchon.