Azul-deserto

Mais um trecho do meu romancemprogresso.
Foto: Carol Bustorff.

BSB

O zumbido nos corredores se torna ensurdecedor. As pessoas circulam com expressões de velório, exaustas, como se tivessem passado a noite em pé ao lado de um caixão, exibem olheiras, sentam-se meio curvadas às mesas, caminham cabisbaixas, trocam olhares carregados de um desespero mudo. Vai rolar demissão em massa, dizem e repetem aos sussurros, e ninguém mais contradiz isso, não há quem peça calma, quem negue, quem diga que vai acontecer, mas não agora, não neste semestre, talvez no próximo ou mesmo no outro.
Não.
— Vai acontecer, e vai acontecer logo.
A coisa está no ar. É questão de tempo. Dias, no máximo semanas. Logo, logo. Vai acontecer em todas as operações, de norte a sul do país. Já está acontecendo.
— Não vai sobrar ninguém.
Jonas começa a prestar mais atenção ao noticiário econômico. Há matérias na Gazeta Mercantil sobre a insolvência da companhia, notícias sobre empréstimos (ilegais?) tomados do BNDES, especulações sobre drásticas mudanças por vir. As dívidas da empresa são em dólares, dizem. Com a desvalorização do real, a coisa assumiu uma magnitude monstruosa e saiu completamente do controle. Prevê-se uma reorganização completa. Enxugamento total. A venda de toda a operação não pode ser descartada. Há compradores potenciais, mas os balanços da empresa não são confiáveis.
— Não vai sobrar nada.
Os almoços são tensos. Os colegas só falam em quem vai e quem fica, em quem é — ou parece ser — prescindível e quem não é, fulano está fora, beltrano também, e se lamuriam sobre o casamento marcado, o carro ainda longe de ser quitado, a faculdade por terminar, o aluguel, a escola dos filhos, não posso rodar, nem fodendo.
— Não saia de férias.
— Por quê?
— Sabe como é. Te demitem assim que voltar.
A boataria é alimentada por meses a fio, e adquire contornos apocalípticas após o 11 de setembro. Uma multidão de monomaníacos e paranoicos circulando pelos corredores, aboletando-se às mesas dos restaurantes próximos no horário de almoço, espalhando-se, tensa, pelos botecos do Plano Piloto, do Guará e de Taguatinga após o expediente, todos à espera do pior, e por isso mesmo repentinamente pontuais, ninguém mais se atrasa, ninguém mais adoece, ninguém procrastina, todos prestativos, todos prontos para o que der e vier, nunca a camisa da empresa lhes serviu tão bem, empenhadíssimos em resolver quaisquer problemas o mais rápido possível, todos exemplarmente comprometidos.
Não.
Todos apavorados.
Muitos enviam currículos a torto e a direito. Vários se inscrevem em concursos, mergulham em apostilas, trocam informações, procuram se ajudar; alguns se matriculam em cursinhos.
— Iniciativa privada é caixão e vela preta — diz Robson certo dia, em meados de dezembro, à mesa do almoço. Estão no restaurante da Imprensa Nacional. — Não vou comprar presente nem pra minha namorada neste Natal.
— Não acho que isso vá fazer muita diferença se a gente for pra rua — diz Jonas, cortando um pedaço de carne vermelha, que em seguida leva à boca com o garfo. Mastiga fazendo uma careta. — Puta merda. Isso aqui parece acém, que troço mais  duro.
— Eles passam demais. Esse restaurante já foi melhor. Sabia que a gente não vai receber o décimo-quarto no começo do ano que vem?
— Claro que não vai. A empresa no vermelho e tudo. Décimo-quarto salário é bônus calculado a partir do lucro.
— Caralho, eles bem que podiam fazer o que têm que fazer logo. Daí a gente não ficava nessa agonia miserável.
— A gente vai ficar nessa agonia miserável de um jeito ou de outro. Empregado ou desempregado. Como você prefere?
— Porra…
Por um instante, Jonas tem a impressão de que Robson cairá no choro e abre um sorriso cansado. — A gente podia falar de outras coisas.
— Tipo o quê?
— Sei lá. Não tem ido ao cinema?
— Cinema? Eu só saio de casa pra vir trabalhar.
— Que horror. Isso não faz bem pra cabeça. Anteontem eu vi… como é que é? Vida Bandida. É bem divertido.
— Vida bandida vai ser a porra do meu futuro se eu perder esse emprego.
Jonas dá uma bufada. — Deixa eu te perguntar uma coisa.
— Deixo.
— Você tem um quartinho com armas e mantimentos na sua casa? Enlatados, água mineral, potes de conserva, essas coisas? Porque olhando daqui parece que você está esperando uma espécie de apocalipse zumbi, sabe qual é? Não só você, mas quase todo mundo ali.
— É que…
— É só a merda de um emprego, Robson. A gente tem vinte e poucos anos. E você ainda mora com os seus pais, mas age e fala como se vivesse num barracão alugado no Setor O, com uma mulher entrevada e cinco filhos catarrentos pra criar. Relaxa, caralho.
— Eu até tento. Juro que tento.
— Olha só. Se perder esse emprego, te juro, mesmo que demore um pouco, você arruma outro. E eu não acho que seus velhos vão te colocar na rua entre uma coisa e outra.
— Não tenho tanta certeza disso.
Com o tempo, Jonas fica de saco cheio de manter esse tipo de conversa todos os dias e volta a almoçar sozinho no terraço da empresa. Glória continua a frequentar o local e, exceto por um ou outro aceno de cabeça, eles não se comunicam. Cada qual se senta a uma mesa, abre sua tupperware, come em silêncio, depois saca um livro e lê até a hora de voltar ao trabalho. No decorrer das semanas seguintes, disfarçadamente, ele olha as capas dos livros que ela traz. A sequência lhe diz muito do estado de espírito da colega: Dia de Finados; Ao Deus-Dará; Amanhã, na Batalha, Pensa em Mim; Uma Longa Fila de Homens Mortos; A Vida de Pi.
Chega o Natal.
Na véspera, antes de ir para a casa dos pais, Jonas abre a página de acompanhantes dos classificados. Quer alguém com quem ainda não esteve. Um primeiro encontro. Escolhe em menos de dois minutos. Sem pensar direito no que faz, leva consigo uma garrafa de espumante.
— Pra que isso? — ela pergunta ao recebê-lo de baby-doll, a indefectível quitinete em uma quadra comercial da Asa Norte.
— É véspera de Natal. Achei errado aparecer de mãos abanando.
— Ué, na maioria dos casos, aparecem segurando o pau.
Eles riem. É uma mulher de meia idade, branca, alguns quilos acima do peso, os cabelos tingidos. O anúncio no jornal dizia: “SORAYA. Coroa ruiva gostosa. Oral-vaginal-anal. Ele/ela/casais”. Tem um forte sotaque mineiro. Depois de hesitar um pouco, estende a mão e pega a garrafa.
— Só pode abrir à meia-noite, hein?
— Olha, eu não prometo nada.
Passa duas horas ali. Ao se despedir, Soraya agradece pelo presente e diz que o espera no réveillon.
Ele ri. — Pode ser o nosso lance, né? Natal e ano-novo.
Está chovendo quando sai do prédio. Sobe a rua, usando as marquises para se proteger do aguaceiro. Sorri ao avistar um táxi.
— Feliz Natal.
A ceia na casa dos velhos é tranquila. Virginia apresenta o novo namorado à família, um tímido estudante de engenharia com quem Jonas e o marido de Valéria tentam conversar, o papo morrendo uma vez após a outra; ele não gosta de futebol, vai pouco ao cinema, só lê coisas da área que estuda. A coisa então se resume a perguntas e respostas protocolares.
— Pelo menos — Jonas comenta com Valéria depois que a irmã e o namorado se vão; a gente ainda tem que passar na casa dos pais dele, disse Virginia — ele parece inofensivo, não?
— Seja lá o que isso signifique.
— Que ele não vai entrar aqui armado com um machado e matar todo mundo?
— Olha, Jonas, eu não conheço ninguém que pareça capaz de fazer uma coisa dessas, mas isso não quer dizer que as pessoas com quem me relaciono sejam inofensivas.
Em meados do mês seguinte, numa manhã ensolarada, dezenas de funcionários são pouco a pouco encaminhados para o auditório da empresa, Jonas entre eles. Há técnicos, atendentes, secretárias, uma recepcionista e até mesmo alguns coordenadores de área. Priscila vai de departamento em departamento, recita alguns nomes, pede que se dirijam ao auditório.
— O que está acontecendo?
— Só façam o que estou pedindo, por favor. Daqui a pouco estarei com vocês.
— Mas o que é?
— Por favor, pessoal.
No auditório, uma mulher sobe ao palco e se apresenta. É a nova gerente da operação. Há um burburinho ao redor, todos sabem o que está prestes a acontecer, e Jonas não entende quando ela diz como se chama.
— Preciso lhes dizer algumas coisas.
É alta e macérrima, tem o rosto fino meio que chupado para a frente por um nariz enorme que parece querer se livrar do restante da cara, sair dali o quanto antes, decolar feito um foguete. Os olhos são meio caídos. Os cabelos presos parecem maltratados por uma sequência interminável de pinturas e repinturas; naquele dia, estão castanhos. Jonas sente pena dela, não sabe bem por quê. É do tipo que fica mal não importa como ou o quão elegantemente se vista, os ossos se projetando sob a roupa feito os peitinhos de uma adolescente.
— Vou tentar ser o mais direta possível.
As mãos enormes de dedos finos seguram o microfone e tremem um pouco. Talvez seja desagradável para ela também, pensa Jonas. Ou talvez ela apenas não goste de subir em um palco e se dirigir a um amontoado de gente que a encara com os olhos arregalados de desespero.
— Vocês estão sendo desligados da empresa hoje. Todos vocês.
Desligados. Ele sempre achou o termo imbecil. Quase tão estúpido quanto os e-mails depois enviados pelo RH aos que ficaram. Fulano partiu em busca de novos desafios profissionais. É uma engrenagem escrota, cheia de convenções e códigos escrotos, ele sempre achou isso, mas precisa do dinheiro. Não obstante, no momento em que a nova gerente da operação anuncia o seu desligamento, Jonas não se sente mal. Pelo contrário. Há um certo alívio, uma crescente sensação de liberdade. A expressão que o rosto de Márcia assumiu no momento em que, meses antes, foi comunicada do rompimento (desligamento afetivo?) lhe ocorre de imediato. Está sorrindo quando deixa o auditório.
— Qual é a graça? — pergunta Robson, puxando-o pelo braço.
— Não sei. É uma merda e tudo, mas acho que vai ser melhor pra mim.
— Melhor?! Melhor como?!
— Não sei, porra. Estou tão fodido quanto você. Mas, ao mesmo tempo, lá no fundo, tenho uma sensação boa que…
— Você pirou de vez, é isso que aconteceu.
— Que nada. E você vai ficar bem. Eu sei que vai.
No corredor, há uma mesa e sobre ela uma caixa onde os funcionários devem deixar os crachás. Alguns choram. Em geral, os mais velhos. Jonas suprime o sorriso e assume uma expressão mais condizente com a ocasião. Sente-se mal pelos outros, é claro. Trabalhou por mais de dois anos com aquelas pessoas. Sabe quem tem filhos, que é endividado (quem não é?), quem planejava o quê. Ele próprio tem dívidas que contraiu despreocupadamente. Uma televisão maior. Um aparelho celular de última geração. Móveis novos. Roupas. Videogame. DVDs. Some-se isso às contas de praxe e é possível ver o pacote de rescisão descendo pelo ralo em poucos meses. Mesmo assim, ele se sente bem. Renovado. Pronto para seguir em frente. Procurar outra coisa para fazer. Talvez retomar os velhos planos. Quem sabe? Os pais ficariam felizes. E jamais se furtariam a ajudá-lo.
Lá fora, no estacionamento, aproxima-se de Robson e pergunta se ele não quer dar uma volta, quem sabe almoçar. — Onde você quiser. Eu pago.
— São dez e pouco. Muito cedo pra almoçar.
— A gente toma uns chopes até chegar a hora.
Robson não diz que é muito cedo para beber. Ambos sabem que, dadas as circunstâncias, não é. — No Pátio?
— Onde você quiser.
Não trocam palavra desde a empresa até o shopping, Robson ao volante do Monza preto que não sabe quando ou se conseguirá quitar. É mesmo um dia bonito, o céu daquele profundo azul-deserto que se vê sobre Brasília de vez em quando, algo que sempre faz o pai de Jonas repetir uma fala tirada de um filme cujo nome ele não se lembra agora:
— É tão bonito que parece de mentira.
Só que, no filme, isso é dito por uma mulher diante de um mar de plástico e um pôr-do-sol pintado na parede do estúdio, em um cenário propositadamente artificial, cinematográfico, “falso”. Mas Brasília também não é um pouco assim? Ou costumava ser, pelo menos ali no miolo, no Plano Piloto, quando ainda havia alguma organização, mesmo que só aparente, na tão propalada capital planejada. A cidade era ou parecia ser, então, uma mentira bem desenhada. Agora, ela cresce para todos os lados, sem freios, desorganizada, explodindo, vazando a moldura, e é como se realidade invadisse a suposta utopia urbana com mais força do que nunca. Antes, nos seus primeiros anos de existência, Brasília só canibalizava os mais pobres, os operários deixados na Candangolândia e os viventes de certas áreas das outras cidades-satélites. Hoje, pensa Jonas, a coisa é indiscriminada. Daí que Brasília não é diferente de nenhuma outra grande cidade brasileira. Não mesmo. Como todas as outras, apodrece do meio para fora, do centro para a periferia, ainda que as pessoas bem postas na vida — ou quase — afirmem e reafirmem o contrário. O Plano Piloto é a medula doente. O resto é obra da metástase.
— No que é que você está pensando? — Robson pergunta no momento em que o carro se deixa engolir pelo estacionamento do shopping e o dia se torna noite como que do nada.
— Na cidade.
— Na cidade? Que cidade?
— Brasília.
— E o que é que tem Brasília?
— Ela não é diferente de nenhuma outra.
— Tá. Genial. Uhu. E daí?
— E daí que ela acaba de mastigar, digerir e cagar a gente. E está prontinha pra fazer tudo de novo.
Robson estaciona o carro em uma vaga, desliga o motor, tira a chave da ignição e encara o amigo. — Fico feliz que você tenha me chamado pra dar uma volta, tomar umas cervejas, almoçar. Espairecer e tudo. Tenho certeza absoluta de que vou sair daqui novinho em folha.