1812

Ontem completei 37 anos de idade.

Sigo abaixo do paraíso, e melhor do que nunca. A vida vai muito, muito bem, obrigado.

Ganhei alguns vinis de presente da minha senhora. Um deles traz a Abertura 1812 de Tchaikovsky.

Foi uma das primeiras coisas que me lembro de ouvir na vida.

Meu pai tinha uma bela coleção de discos, e eu fui uma criança extremamente perturbada agitada. Quando as palmadas não adiantavam, ele me levava para a sala de estar, fechava a porta, fazia com que eu me sentasse no tapete e colocava alguma coisa para tocar. O que estivesse à mão.

(Por sorte, ele ainda não gostava de new age por aqueles dias.)

Beethoven e Brahms me deixavam intrigado. Ravel me entediava. Wagner me dava calafrios, fazendo com que eu ficasse ainda mais agitado perturbado. Bach me fazia sorrir, sei lá por quê. Talvez pela promessa de uma iluminação futura.

Mas nada se comparava a Tchaikovsky.

A música do russo me divertia demais. Soava meio imprevisível para mim, como se brincasse com meus ouvidos e expectativas, pregando uma peça a cada andamento. Era assoviável, e dali a pouco não mais. Ela me escapava e de repente eu sentia um tapinha no ombro: aqui estou.

E havia os canhões.

Nossa, o canhonaço ao final da Abertura 1812. Sinos e canhões. Como se uma cidade festejasse a própria destruição no exato momento em que ela ocorresse.

No presente.

Wagner me assustava porque era algo que brotava da longa noite escura que nos antecede e sucede, muito antes e muito após a destruição, um eco das profundezas do nada, mas Tchaikovsky era outra coisa, ele se regozijava com o presente em toda a sua gloriosa destrutividade.

nosso presente.

Presença: a explosão-em-andamento que nos engendra e define. Tchaikovsky traduzia a beleza ensurdecedora da nossa morte em curso, a eterna atualidade do fim.

Nasci em 1980. Nasci com a 1812.