Conexões etc.

Sempre às quintas,
mas vocês já sabem disso (acho).

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::: Donald Trump foi eleito presidente dos USA e Martim Vasques da Cunha escreveu a respeito AQUI, catapultado por uma (à primeira vista) inusitada leitura do filme O Patriota. Um trecho:

Esta foi justamente a escolha que o povo americano teve de fazer ontem: entre Hillary Clinton e Donald Trump, preferiu o mal menor – ou seja: sua alma foi para os porcos para não se transformar em um mero acúmulo de átomos. Mas, ao realizar isto, talvez não tenha percebido que provocou uma revolução mais profunda para aqueles que sempre souberam que a política nunca foi a busca de uma pátria espiritual. A falta de fé da sociedade ocidental – e a consequente “morte da honra” que fez o progressismo esquerdista ter o monopólio do bem e da justiça em sua retórica verdadeiramente populista – provocou um efeito bumerangue em que todos querem, do modo mais insólito, sentir o gosto do risco e da incerteza como algo genuíno e positivo na condição humana como um todo. É o que John Gray bem descreveu em seu recente ensaio publicado esta semana na New Statesman, chamado apropriadamente de The Closing of the Liberal Mind (O Declínio da Mentalidade Liberal): a partir de agora, o liberalismo (e suas variantes, como o progressismo, a esquerda revolucionária e o conservadorismo moderado) não tem mais razão de ser porque os seus integrantes perderam completamente a sua conexão com a própria realidade. É o que acontece quando você se esquece da pátria do espírito e troca a sua honra pessoal para ser mais um burocrata do pensamento ou dos corredores do poder.

::: Ainda a respeito das eleições norte-americanas, demorei para encontrar na grande mídia (ou coisa que o valha) uma análise que escapasse do chorume e da estupefação predominantes (ou, em se tratando da paupérrima GloboNews, da estupidez pura e simples). É assinada por David Usborne e foi publicada AQUI pelo Independent. Dois trechinhos (mas leiam a coisa toda, sim?):

I still recall Ms Clinton telling New Hampshire students in February that she understood voters’ anger that so much influence, power and money was concentrated in the hands of so few. And I thought, oh dear, she’s a lost cause. Because she was clearly describing herself.

(…)

But she failed above all because she was on the wrong side of the tsunami. And Trump won because he saw it, understood it and knew precisely how to ride it home. (…)

::: Mudando completamente de assunto, Syd Barrett, o sujeito sem o qual o Pink Floyd jamais teria existido, e com quem (se tivesse continuado) a banda teria implodido, é celebrado em Cambridge, VIRAM?

::: Por falar em (ex-?)músicos, John Lurie virou pintor há alguns anos — e DIZEM que dos bons (o quadro que ilustra o post é dele, aliás). No link, ele próprio fala a respeito.

::: Ainda no campo das artes, o senegalês Sadio Mané vem jogando um futebol belissimamente agressivo no Liverpool. Perfilaram-no AQUI.

::: Por falar em artistas agressivos, deem uma olhada NESTA entrevista que Martin Scorsese cedeu em 1987. Tinha lançado o bom A Cor do Dinheiro (só um gênio para conferir exuberância visual à sinuca) e lutava para fazer o personalíssimo A Última Tentação de Cristo. Por que linkar uma entrevista publicada há quase vinte anos? Porque o homem diz coisas lindas, como:

I’ve been thrown out of schools and fired from jobs. I don’t want to work. I can honestly say I haven’t done an honest day’s work in my life. They pay me for what I like to do, which is almost insane. And I always complain about it, too, the whole time—”I hate this, and I hate that”—but that’s what I do. My films really have to be a part of a whole body of work that says something to me. To me.

::: 

(…) No museu da memória vejo da janela do dormitório do colégio interno, antes de deitar-me, as luzes do Maracanã acesas para o jogo noturno. Escondido debaixo das cobertas há o radinho de pilha, com um fone de ouvido em que escutarei o jogo, driblando a vigilância do irmão regente. Enquanto os colegas dormem, me vejo transportado ao gramado do estádio. No museu da memória estamos ouvindo música em ondas curtas no radinho de pilha, diante da mata, na casa modesta na rua de terra, em Venda Nova, nos arredores de Belo Horizonte, eu e minha companheira, no meio do barulho de sapos e grilos e a visão de vaga-lumes. No museu da memória há o grupo fantasiado de índio descendo a rua Santa Clara, em Copacabana, marcando o ritmo, de forma arrepiante, com os seus tamancos no asfalto quando a bateria silencia. No museu da memória vejo pela porta entreaberta do meu quarto, em Catalão, Goiás, os seios de minha jovem tia trocando de roupa para dormir. (…)

Sérgio Sant’Anna, em O Conto Zero e Outras Histórias (Cia. das Letras).

:::

Não bastasse ter acontecido essa desgraceira, éramos órfãos da calamidade que foram os anos 90. Eu e ela. Um casal de adolescentes esgotados que descobria um mundo muito mais esgotado e talvez até mais decadente que o nosso casamento. O mesmo esgotamento que se abateu em todos os nossos amigos e amigas, antes mesmo de nos tornarmos adultos e repetirmos exatamente todos os erros de nossos pais somados aos nossos próprios erros, e fracassos.

Marcelo Mirisola, em A vida não tem cura (34).

::: Zadie Smith lança Swing Time neste novembro. Tropecei em resenhas mezzo negativas no New York Times e no Guardian; seu romance anterior, NW, também não empolgou a média dos resenhadores, embora eu tenha gostado (vide o que escrevi para o Estadão, AQUI).