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Se a tradição é acessível apenas como lasca e fragmento, o poeta na caça de formas não vê diante de si entulhos – mesmo se estes são, ao menos para ele, vivos e vitais justamente enquanto fragmentos. Seu canto inaudito é tecido por esses retalhos que, uma vez exaurida sua função, não sobrevivem àquele. Daí a impressão de artificialidade, que com muita frequência e injustamente é deplorada em sua poesia: Pound procede como um filólogo que, na crise irrevogável da tradição, tenta transmitir sem notas de rodapé a própria impossibilidade da transmissão. (…)

Trecho da introdução de Giorgio Agamben ao volume com textos de Ezra Pound, Dal naufragio di Europa, publicado no último dia 1º/10/2016 em La Stampa, e traduzido e republicado pelo pessoal do blog Flanagens, AQUI.

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Em tempos de redes sociais, esse desejo de apagar (ou esconder) a si mesmo para construir um outro que você não é, tomou proporções de um surto psicótico sem precedentes. Não é à toa que muitos leitores hoje em dia gostem tanto da chamada “autoficção”. É que todos fazem “autoficção” diariamente em suas timelines. Cada um faz da própria vida uma ficção fantasiosa, colocando os demais como coadjuvantes da grande novela do seu EU fantasioso.

Trecho da entrevista cedida pelo escritor Tadeu Sarmento à Diversos Afins. Leia na íntegra AQUI.

Sarmento é autor do ótimo Associação Robert Walser para sósias anônimos, que resenhei para o Estadão meses atrás, AQUI.

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E não importa o quão repugnante são as situações, Refn filma tudo com a maior elegância e beleza possível. O grotesco é lindo em THE NEON DEMON. Fica bem claro pra mim que a única preocupação de Refn é com estética, cores, enquadramentos simétricos, a beleza das imagens em detrimento à própria narrativa, o que causa certa frieza e desconforto, mas que condiz perfeitamente com o universo do filme, e aí cito de novo o que aquele personagem diz: ‘Beauty isn’t everything. It’s the only thing’.

De uma resenha assinada por Ronald Perrone sobre Demônio de Neon, novo longa do dinamarquês Nicolas Winding Refn. Perrone ressalta bem o que torna Refn tão peculiar e, para o meu gosto, tão bom. Confira AQUI.

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Nostalgia has always been a prominent element of literary culture, one that simultaneously allows for woeful lamenting about the future and harkening back to a time that was more amenable to writers. Shakespeare and Company has become synonymous with those supposed halcyon days, a place where the greatest writers of the 20th century could come together in unassuming comfort. But Whitman’s words suggest that even mid-century, the sort of space Shakespeare and Company sought out to create was rare. In the decades since, it has only become more uncommon.

De uma resenha de Shakespeare and Company, Paris: A History of the Rag & Bone Shop of the Heart, de Krista Halverson, Sylvia Whitman e Jeannette Winterson, publicada pela Economist, AQUI.

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E MAIS:

O jornalista Rafael Oliveira escreve sobre como a mudança no calendário da Libertadores é uma bela oportunidade para os cartolas brasileiros começarem a organizar a bagunça que se tornou o futebol por estas plagas, AQUI. (Oportunidade que perderão, mas fica o registro.)

Ainda futebol: matéria no Guardian sobre um grupo de torcedores do Liverpool propondo um debate acerca da possibilidade de um setor em Anfield Road com torcedores em pé, assunto controverso (para dizer pouco) desde o Desastre de Hillsborough.

Beppe Severgnini escreve para o New York Times sobre a polêmica em torno da suposta revelação de quem estaria por trás do pseudônimo Elena Ferrante, AQUI. Texto curto e sóbrio, cobrindo todas as bases.

Por fim, Claire Messud escreve sobre o trabalho da artista plástica Alice Neel para The New York Review of Books, AQUI. A propósito, ilustra este post Isabetta, pintado por Neel em 1934-5.