A persistência da noite

dilma

::: Voegelin, em Hitler e os alemães (p. 143): “(…) Ou seja, a estupidez não é criminosa em si, mas pode tornar-se criminosa pela circunstância social. Então, quem quer que, como estúpido, num lugar da sociedade em que não poderia estar, dá ordens ou tenta instruir outros, é um estúpido criminoso; e por causa disso ele se torna um criminoso, mesmo que ele próprio não entenda assim de maneira nenhuma”.

::: A sra. Dilma Rousseff cometeu vários crimes de responsabilidade e paga por isso conforme a Constituição em vigor. Não há “golpe”, mas o processo é viciado porque o sistema no qual ele corre é viciado. Dados os representantes que elegemos, e dado o modus operandi do Congresso Nacional desde sempre (mas “sofisticado” nos últimos treze anos mediante ações pontuais de petistas e aliados, tais como o incremento da fragmentação partidária, o abastardamento e a prostituição dos nanicos, mensalão, petrolão etc.), qualquer processo que tramite por ali é contaminado. Que a sra. Rousseff seja defenestrada por centenas de outros criminosos ou, melhor dizendo, estúpidos criminosos, é — além de uma tremenda ironia — um sintoma do vício e da contaminação supracitados. As bocas que a devoram foram alimentadas por ela e seu antecessor, bocas que agora, babando escancaradas pelos escombros, esperam pelos seus próximos donos.

::: Ontem, acompanhando a votação, vi como alguns reclamavam do fato de que raríssimos parlamentares se referiam ao conteúdo da denúncia antes de proferir o voto. Quase não se ouviu “pedaladas” e muito se ouviu “Deus, família, pátria” e até mesmo um inacreditável “pela paz de Jerusalém!”, o que é assustador na medida em que exprime o quão pouco laica é, na prática, a República (não é, nunca foi, jamais será) e, também, o quão despreparados e boçais são os nossos representantes. Por outro lado, quando penso em 1992, tampouco me lembro de deputados discorrendo, com clareza de raciocínio e embasamento jurídico, sobre os malfeitos de Fernando Collor de Mello, a Operação Uruguai e o que mais houvesse. O mesmo circo, então e agora. E, não se enganem, o mesmíssimo país.

::: Às vezes, a retórica dos que procuram defender a sra. Rousseff é tão pobre quanto ela própria. Vociferam “golpe!” a cada instante, comparam as atuais circunstâncias com as de 1964 e identificam as vozes dissonantes com o que há de pior no Congresso Nacional. “Se você é a favor do ‘golpe'”, tuitaram ontem, “está do lado de Jair Bolsonaro.” Bem, sugiro que deem uma olhada na lista dos 441 deputados federais que, em 1992, disseram “sim” ao impeachment de Collor e me digam se ser favorável ali equivaleria a “estar do lado” de Roseana Sarney, Pedro Corrêa, Aécio Neves, Sérgio Naya, Jair Bolsonaro (sim, ele já estava por lá), Geraldo Alckmin, José Dirceu e José Maria Eymael. Acho — ou espero — que não.

::: Também é falaciosa a ideia de que, por ter sido eleita, a sra. Rousseff não possa ser apeada do cargo. Ora, Collor também foi eleito, mas o problema maior de tal argumento reside noutro lugar: ela foi reeleita por dezenas de milhões de votos (incluindo o meu), mas isso teria acontecido se soubéssemos da extensão de sua incompetência administrativa, mascarada enquanto foi possível, da inviabilidade de seu projeto “desenvolvimentista” e, sobretudo, dos crimes que cometeu para viabilizar a vitória nas urnas? É curioso, a essa altura, constatar que uma das pedras de toque das campanhas petistas, os programas sociais, tenham sido mantidos a qualquer custo (inclusive por meios ilegais) para que não se perdessem votos, aprofundando uma crise econômica que já é descrita por muitos como a pior das últimas décadas. Dizendo de outro modo, o custo da manutenção descerebrada e criminosa de tais programas (cuja necessidade não questiono) são os próprios programas e muito mais, uma vez que a falência do país, como de praxe, recai com maior força sobre os pobres. Ademais, se Cunha não tem legitimidade para seguir na Câmara e fora da cadeia, que legitimidade tem a sra. Rousseff para continuar na presidência, tendo não só estrangulado o país com uma complexa teia de corrupção como também praticado um dos maiores estelionatos eleitorais de que se tem notícia? E, a rigor, sendo Michel Temer o beneficiário indireto e, talvez, muito em breve, direto de tais e tais descalabros, tampouco ele tem legitimidade para assumir o que quer que seja — no que as minhas orações estarão com o Tribunal Superior Eleitoral.

::: É mesmo tragicômico que o condutor do processo na Câmara dos Deputados tenha sido Eduardo Cunha. As motivações dele são conhecidas por todos, bem como seus expedientes e as acusações que pesam sobre a sua carcaça impassível. Mas, sob certo aspecto, acho justíssimo que tenha sido ele o condutor, e não algum congressista de reputação (mais ou menos) ilibada, caso ainda tenhamos algum. Assim como Lula, embora não seja tão “bom” no que faz quanto o ex-presidente, Cunha é um fruto exemplar do nosso sistema político; mais do que isso, é o produto acabado de uma nação essencialmente corrupta, em que a estupidez criminosa é a regra e a depauperação anímica se expressa cotidianamente, em toda parte, em todos os estamentos sociais, sem exceção. A sra. Rousseff foi enquadrada por um igual, e não venham me dizer que, supostamente, ela jamais auferiu qualquer ganho particular (além do poder conferido pelo cargo que ainda ocupa), não tem conta no exterior etc. Mesmo que seja o caso, ela foi eleita e reeleita presidente da República graças a uma engrenagem corrupta montada e alimentada pelos seus e desmantelou o país em função de um projeto de poder cuja magnitude ainda estamos contabilizando. Em princípio, pouco importam as razões pelas quais os recursos foram desviados, se para si ou em nome de “algo maior” (o partido, as eleições, o poder); importa que foram desviados.

::: Querendo  ou não, as criaturas que ontem subiram naquela espécie de púlpito e exibiram suas visões distorcidas, seu egoísmo patológico, suas falhas cognitivas e sua psicopatia, representam, sim, a maioria dos brasileiros. Não me assustei, por exemplo, quando alguns vizinhos aplaudiram a fala aterradora de Jair Bolsonaro, na qual saudou a memória de um torturador. Não me assustei com o buzinaço, com o panelaço, com os palavrões, com a “festa”. Isto também é o Brasil. Tal escuridade. Não há crise de representatividade, pois também somos aquilo, deslizamos todos pelos intestinos de um mesmo monstro, seguindo aos tropeços pela noite republicana, violentadores e violentados. O provável impeachment da sra. Rousseff, a possível cassação de Cunha e a almejada (por mim) ejeção de Temer não consertarão ou consertariam nada, pois carências tão fundamentais (mais do que políticas, educacionais; mais do que educacionais, anímicas) não podem ser supridas superficialmente. Em todo caso, e por mais que os sobreviventes da tormenta sejam quase todos tão ralé quanto os que agora rebolam na berlinda, não deixo de sentir algum alívio com as quedas prováveis, possíveis e almejadas. Há um reordenamento em curso. Dentro de algum tempo, sentiremos na pele o que nele será para o bem (pouco, e se tivermos sorte) e o que nele será para o mal. A noite persistirá.