Lula, o obscuro

“But no one came. Because no one ever does.”
― Thomas Hardy, Jude the Obscure.

lula

Fernando Donasci / O Globo

1.

Foi há muito tempo, você talvez não se lembre, mas, no dia 4 de março de 2016, depois de prestar depoimento a investigadores da Operação Lava Jato (sic), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva correu para a sede do Partido dos Trabalhadores e fez uma espécie de pronunciamento. Na ocasião, ele esperneou (com justiça, creio) contra o fato de ter sido conduzido coercitivamente, inflamou a militância, comparou-se a uma jararaca (dizendo que, se quisessem matá-lo, deviam lhe acertar a cabeça, não o rabo) e, um pouco antes, numa conversa ao telefone com a presidenta Dilma Rousseff, disse que os investigadores podiam enfiar o processo no cu.

Lula estava com tudo naquele dia. Em seu elemento, no proscênio, acuado e por isso mesmo pronto para o que desse e viesse, vociferando, atacando, conclamando, distanciado da persona que criara havia pouco mais de uma década e mais próximo do candidato à presidência nas eleições de 1989. Armado com uma garrafa de água mineral, falou em guerra. Talvez devesse ter falado em guerrilha. Teria mais a ver com a reação que queria provocar, tanto dos aliados quanto dos adversários — ou inimigos.

Muita coisa aconteceu desde então, a crise política como um monstro que se alimenta de si mesmo, delações, abusos, recuos, manobras, grampos, discursos, liminares, vazamentos, conchavos, apelos, Lula alçado à condição de ministro-chefe da Casa Civil e então apeado de lá até que o STF decidisse o que fazer com a nomeação (coisa que não foi necessária, dado o desfecho do processo de impeachment) — o mesmo STF que ele chamou de “acovardado” noutra conversa telefônica com a ex-presidenta Rousseff, o que é irônico, pois quem buscou foro privilegiado ao aceitar o posto de ministro foi ele, Lula, o qual, naquele pronunciamento em março de 2016, ladeado por militantes, líderes estudantis e pelo núcleo duro do PT (se é que ainda existe algo como o núcleo duro do PT), exaltou a própria trajetória, como de hábito, e por um momento foi como se aludisse à sinopse do derradeiro filme de Fábio Barreto ou lançasse aos quatro ventos as linhas gerais de uma futura biografia autorizada, mais completa e que incluirá o capítulo (ainda interminado) no qual ele se levanta contra os “golpistas” e resgata o Estado Democrático de Direito, seja retornando à presidência nos braços do povo em 2018, seja ateando fogo ao país caso sua condenação o impeça mesmo de disputar as eleições (para não falar na cada vez mais provável prisão).

Muita coisa aconteceu desde aquele dia em março, e muito ainda acontecerá. Houve, por exemplo, ainda em 2016, o impeachment de Rousseff, categorizado como “golpe” pela retórica lulo-petista que prima pela vitimização. Aliás, é curiosa essa retórica dos que ainda hoje falam em “golpe”. Ainda em 2016, no auge do referido processo, eu estava na PUC-SP e vi algumas dezenas de alunos reunidos no pátio conhecido como “Prainha”. Eles berravam “Não vai ter golpe!” e, sempre que identificavam um suposto opositor (ou inimigo), também zurravam: “Fascistas! Fascistas! Não passarão!”. Ou seja, o antídoto para o suposto fascismo dos “golpistas” e “reacionários” é um urro fascista em cujos perdigotos é possível enxergar o paredão, e não um paredão qualquer, mas um paredão escatológico, por assim dizer, o paredão que colocará fim em todos os paredões, eliminando de uma vez por todas os inimigos. Assim como alguns manifestantes pró-impeachment exercitaram o hábito criminoso de agredir qualquer pessoa que vestisse algo com a cor vermelha, eu vi, na PUC, uma pessoa ser identificada como “fascista” porque trajava uma camisa da seleção brasileira de futebol (“uniforme” dos então favoráveis à deposição de Rousseff). Ora, alguém que, àquela altura, ainda usasse o uniforme da imunda Confederação Brasileira de Futebol para protestar contra a corrupção seria um desinformado ou, no máximo, um idiota. Mas, fascista?

Na ocasião em que se pronunciou na sede do PT, Lula se comparou a Floriano Peixoto, coisa que é também irônica, pois Floriano assumiu a presidência depois de dar um golpe noutro golpista, Deodoro da Fonseca, e esta é uma imagem e tanto, não? Ao ouvi-lo, imaginei um Monte Rushmore da nossa República (que tal no Pico 31 de Março?) com as cabeças de Deodoro, Floriano, Getúlio e Lula, e depois pensei que, sejamos vermes, ratos, insetos ou jararacas, todos nos arrastamos à sombra (ou à mercê) das ervas daninhas que se arvoram impossivelmente desde o chão que pisamos (e por eles asfaltado e superfaturado; meus sinceros agradecimentos) até o céu. Pensando naquelas quatro cabeças, e em outras tantas, é impossível (para mim) não cogitar uma mesma linhagem. Há uma lógica interna nos levando (ou arrastando) de um “líder” a outro, pelas urnas ou não; eles estão sempre devorando uns aos outros, menos pelo que teriam de diferente (pouco) e mais pelo que têm em comum (quase tudo), e o País (sic) é o produto final dessa dieta pouco saudável. A(s) História(s) do Brasil nada mais é(são) do que descrições mais ou menos acuradas de um tal processo fisiológico.

2.

Ninguém é louco de negar que Lula é um bom orador, e sempre que o vejo abrir a boca me vem à cabeça aquele verso de Bob Dylan: “Mas para viver fora da lei, você tem que ser honesto”. Lula é um bom orador e, à parte a vitimização, a demagogia e o populismo, mas também pela forma como se vale de tais elementos, é incrível como ele se coloca historicamente como uma gritante exceção, o ponto fora da curva capaz de sublinhar a própria excepcionalidade, contraposta à imundície ordinária dos outros (identificados como direitistas, elitistas, golpistas, fascistas), os quais estariam a todo momento tentando emudecê-lo, castrá-lo, neutralizá-lo. Se o criticam, é preconceito de classe. Se o investigam, é coerção. Se o processam e condenam, é golpe. Quando enfim o prenderem, será um holocausto em sua acepção original, isto é, um sacrifício em que o animal em questão (e muitos já não disseram que Lula é um autêntico “animal político”?) será “queimado por inteiro”.

Lula é idealmente inalcançável, pois se coloca num “lugar não-lugar”: está na História (como exceção) e fora dela (para se ver a si como exceção). Górgias aplaudiria tal construção.

O ponto, para mim, é que, mesmo sublinhando e festejando a própria excepcionalidade, Lula não é, em absoluto, uma exceção. Não é, nunca foi. Nem mesmo nas desvairadas eleições de 1989, por exemplo, quando foi assaltado por uma edição tendenciosa (pleonasmo?) de seu debate com Fernando Collor de Mello, na Rede Globo. Nem mesmo então, quando defendia desvarios como o calote da dívida externa, Lula era uma exceção, estando mais para a poeira levantada pelo Muro de Berlim ao vir abaixo, o eco do eco do eco de um discurso esquerdista que ajudou a inchar o intestino grosso do século XX, cujo processo de excreção ainda está em curso, por exemplo, pelas bocas dos que nivelaram 2016 com 1964.

Hoje, muitos anos depois de aparar a barba e o discurso para enfim vencer as eleições e assumir a presidência, e também por ter se reinventado com a mesma facilidade com que, agora, recupera quando lhe é conveniente a retórica de outrora, vociferando contra quase tudo e quase todos, Lula está mais longe do que nunca de ser uma exceção. Pelo contrário, ele se mostra por inteiro como o grande produto da nossa depauperada vivência (a)política — e “grande”, aqui, vai no sentido de melhor ou bem acabado. Mais do que qualquer um de seus predecessores, mais do que a sua pobre sucessora, mais do que seus eventuais opositores, Lula encarna como ninguém a alma republicana brasileira. Ao reiterar o discurso da excepcionalidade, montado nele enquanto for possível, Lula apenas cavalga o maniqueísmo psicótico que vela a nossa morte política. Poucos entendem tão bem o Brasil. Poucos, como ele, têm a noção exata do que e como fazer para honrar a vocação obscura e criminosa que norteia a nação desde a carta de Caminha, o pai fundador, o autor da nossa sagrada escritura. Lula sabe que não há desvios, que não há lugar que não esteja ensombrecido na História do Brasil. Não há personagem que seja exceção. O curso é um só, e a unidade nacional não é de ordem cultural, mas anímica, pois diz respeito a essa consanguinidade trevosa. Todos eles foram concebidos em um mesmíssimo porão.

Por fim, vale ressaltar que a obscuridade de Lula implica em um paradoxo: ela elude na medida em que se mostra, e se mostra na medida em que elude. Nem mesmo Fernando Henrique Cardoso alcançaria tamanha sofisticação. Enquanto expressão máxima da escuríssima alma nacional, Lula parece ter cometido o erro de tentar sequestrar a República quando, na verdade, era sequestrado por ela. Mesmo jogando como poucos, talvez como ninguém, Lula não é maior do que o jogo. Pelo contrário, é o próprio jogo que lhe dá razão de ser.

No decorrer dos próximos meses, enquanto lutar pela liberdade (posto que a biografia ele já perdeu, exceto para a militância desarrazoada e para os correligionários que, por ingenuidade ou canalhice, ainda se esforçam para apoiá-lo), ele estará no maior palco de sua carreira, maior até do que a presidência, e fará de tudo para lá se manter, mesmo que isso signifique atear fogo ao país. Em meio às chamas, enquanto tudo e todos se queimam, resta o consolo de saber que, para o bem e para o mal, o fogo jamais caminha sozinho — e ninguém é imune a ele.