Entre a noite e o dia

Trecho de Abaixo do paraíso, meu novo romance. Leia um pouco sobre ele AQUI. O livro chega às livrarias em março, pela Rocco.

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Quando se aproximava do trevo de Anápolis, o distrito industrial à direita e a cidade à esquerda, Cristiano pensou em Brasília, no que fizera (nada) e no que vira (muito) por lá. Dois modos de se situar na cidade, ou de confrontá-la. Não saberia dizer qual deles era o pior, o mais arriscado. Não se lembrava de muitas pessoas que se mantivessem aquém da linha traçada no chão (Silvia era obviamente, e até certo ponto, cúmplice de Paulo), que não lidassem com ela de algum modo, que não a ultrapassassem eventualmente. Os conhecidos em Brasília gerenciavam o tráfico aqui e acolá, o entorno do Distrito Federal como o Velho (Centro-)Oeste, um vácuo deixado pelo Estado no qual era surpreendente que a lei da gravidade ainda estivesse em vigor (nada mais estava) (talvez porque a gravidade não interferisse no andamento da coisa), e tinham aquele gosto pela expansão agressiva dos negócios. Cristiano os conhecera anos antes, quando trabalhara na campanha para senador de um aliado do reizinho, Paulo dizendo que eles precisavam dos votos do entorno do DF e que a melhor forma de consegui-los era se aliando ao que chamava, meio sério, meio sacana, de lideranças locais. Shows de música sertaneja, camisetas e cestas básicas distribuídas mediante o estreitamento dos laços com as tais lideranças, tudo pelo bem público, no interesse da comunidade, o melhor para todos nós. E o reizinho administrava Goiás também se colocando assim agressivamente, não? Vide o que Cristiano fazia naquele exato momento, a caminho de obter informações escusas por meios ilícitos, circulando à sombra do poder ao mesmo tempo em que alimentava (e era alimentado por) essa sombra. Por tudo isso, a ideia de um submundo lhe parecia falaciosa. A superfície era uma só. Quando muito, poderia se falar em expressões diurna e noturna de uma mesmíssima cartografia. Os conhecidos em Brasília se restringiam (no mais das vezes, e por enquanto) à expressão noturna; o governador goiano conciliava ambas, a depender das circunstâncias, ou às vezes no âmbito de uma mesma circunstância, como as eleições. Assim, ao adentrar a pujante cidade de Anápolis para fazer o que o governador incumbira alguém de incumbir outro alguém de incumbir Paulo de lhe incumbir, Cristiano sentiu-se parte de uma brincadeira sem começo nem fim, uma fila a perder de vista formada por pessoas de costas umas para as outras e entregues a uma sucessão de empurrões desmotivados, este empurra o que está à frente, que empurra o seguinte, que empurra aquele, que empurra aquele outro etc., os empurrões adquirindo uma violência maior a cada vez, alguém golpeado aqui e ali, um soco na nuca, um eventual pontapé, um morto eventual, por que não?, nada que altere a normalidade, o andamento em geral tedioso do jogo, a violência aumentando e diminuindo conforme a dinâmica própria e inescrutável da coreografia. Cristiano estava ali, entre a noite e o dia, encalacrado na madrugada infinita cuja escuridade baça lhe penetrava os poros e, pouco a pouco, enegrecia ossos, coração, vísceras, dentes.