Notas sobre a tristeza

(…) confiderabo meipfum tanquam
manus non habentem,
non oculos, non carnem, non fanguinem,
non aliquem fenfum (…)

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::: Quanto à tristeza (prefiro não usar o termo clínico “depressão”), só me resta cercá-la com palavras, escolhendo um de três exercícios igualmente fúteis: continuar deitado na cama, inerme; levantar-me e saltar pela janela; escrever estas notas.

::: Mas creio que o suicídio não seja sequer um problema filosófico, como disseram outros. A inquietação que o calça é de outra categoria.

::: O suicídio não é uma resposta ao absurdo, mas um deslocamento em seu interior. Um deslocar-se nadificador.

::: É uma palavrinha brutal, “suicídio”; o gesto a que ela se refere diz respeito a um esvaziamento completo, uma (auto)anulação que engole o futuro possível, mas, sobretudo, ateia fogo ao passado, salga o que foi vivido até o momento do salto.

::: O gesto suicida inscreve(-se n)o próprio apagamento. A filosofia não alcança tamanha rarefação silenciadora.

::: O suicídio diz algo, com gravidade e violência, e o que ele diz é o próprio silenciamento. São dois pontos afixados no vazio: nada antes, nada depois.

::: A tristeza, por sua vez, gagueja em minúsculas (mesmo quando grita).

::: A tristeza é uma perplexidade negativa. Ela convida ao silêncio.

::: Meu esforço aqui, portanto, é similar ao do maratonista que procura ignorar os tornozelos torcidos e seguir, impossível e absurdamente, correndo.

::: Leio ao final da primeira das Meditações de Descartes: “(…) pensarei que o céu, o ar, a terra, as cores, as figuras, os sons e todas as coisas externas nada mais são que ludíbrios dos sonhos, ciladas que ele (gênio maligno) estende à minha credulidade. Pensarei que sou eu mesmo desprovido de mãos, de olhos, de carne, de sangue, de sentido algum, mas tenho a falsa opinião de que possuo tudo isso”.

::: Para Descartes, a hipótese do gênio maligno é um recurso metodológico. Mas impressiona como a sua descrição se aproxima muito da experiência que tenho da tristeza.

::: A tristeza me alcança na forma de um esfarelamento gradual do meu próprio corpo, até o momento (na cama, inerme) em que me sinto “desprovido de mãos, de olhos, de carne, de sangue, de sentido algum”, irrespondivelmente exposto ao sofrimento anímico, reduzido a tal resto.

::: A tristeza é um envergonhar-se que alcança um nível ontológico; a mera existência torna-se embaraçosa em sua dolorosa nudez. O mundo não nos cobre; os prédios não nos camuflam; os outros não nos protegem, sequer é possível que estejam próximos.

::: A tristeza faz com que restemos sozinhos e nus, pura alma e pura dor, no silencioso deserto existencial.

::: Eu me envergonho e me entristeço. Um animal reduzido à própria ausência, literalmente desencarnado, pura alma, pura dor, anulado pela impossibilidade de qualquer significação anterior e ulterior.

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