Stevens

shane

Os Brutos Também Amam é sobre a fundação de um país. E, a exemplo de qualquer outra, aquela também é uma nação alicerçada por uma infinidade de matanças e carnificinas. É claro que o momento histórico enfocado é de transição. A lei já começa a se impor ou, ao menos, fala-se bastante dela. A lei, não a justiça. Uma coisa talvez leve à outra, eventualmente, ou não. Importa é que há um Estado em algum lugar e a era dos pistoleiros está chegando ao fim. Shane (Alan Ladd), o personagem-título, é uma espécie de relíquia daquele oeste selvagem, e sabe disso. Os tempos são outros, e a selvageria aos poucos adquire novas formas. Ele tenta se adaptar. Arranja trabalho numa fazenda, afeiçoa-se pelo empregador e sua família. A paixão nunca consumada, mas explícita, entre Shane e a mulher é primorosamente explorada no decorrer do filme. Lembra o amor de John Wayne pela cunhada em Rastros de Ódio. O foco, porém, está na luta dos colonos contra um criador de gado que lhes quer tomar as terras. Os colonos estão assentando um país, e assentar um país significa delimitar terras, propriedades, erguer cercas, estabelecer fronteiras. Não há mais lugar para open range. Ou seja, não há bem vilões e mocinhos aqui. O criador de gado é, de certa forma, também uma relíquia de outros tempos, um romântico, alguém que não compreende direito a mudança em curso. Tanto que, para atingir seus objetivos, contrata outra relíquia, o pistoleiro à antiga interpretado por Jack Palance. Shane, então, precisará agir, empreendendo uma derradeira matança. A conversa final, antes do tiroteio, chega a ser fantasmagórica. São ecos de um outro lugar. E, não por acaso, cumprida a missão, quando vai embora, Shane cavalga sobre um cemitério.

Décadas depois, temos outro estrangeiro selvagem: o arrivista interpretado por Montgomery Clift em Um Lugar ao Sol. O país está formado, ao redor. Já passou por duas guerras mundiais. Clift procura o tio rico, quer um emprego. É um sujeito quieto, tímido, afável. Conseguirá muito mais, e não. Aos poucos, sobe na vida e, ao mesmo tempo, desce inexoravelmente: o noivado com a menina rica (Liz Taylor) é ameaçado pela gravidez indesejada de uma colega de trabalho, alguém que traçava nos primeiros dias, solitário, entediado. Ela (Shelley Winters, aliás) não consegue um aborto, e a cena no consultório médico é uma obra-prima de construção cênica, com Stevens deixando a câmera a uma certa distância da atriz e de seu desespero crescente; o efeito é estarrecedor. Similarmente, quando Clift dança pela primeira vez com Taylor, a câmera os enquadra da outra sala, longe deles, sugerindo o vácuo moral que acabará por solapar o rapaz. O filme é enorme como o abismo que enfoca. Em nenhum outro, Stevens se valeu tanto e tão bem da câmera como instrumento narrativo primeiro. É um mestre da composição, e sua imaginação, aqui, revela-se à altura do melhor Hithcock. Por exemplo: a escuridão dentro do carro, quando Winters sai do consultório médico e diz a Clift, cujo rosto só vemos quando ele acende um cigarro, que só lhes resta casar; as costas de Taylor, Clift deitado em seu colo, enquanto ela fala de um casal que se afogou no lago que ambos e nós também fitamos, à frente; a conversa franca entre Clift e o pai de Taylor sobre o passado, mas não sobre o presente, claro, que entrevemos quase que do ponto de vista dela, às costas deles. Um Lugar ao Sol é inteirinho dotado de uma angústia surda. Há e não há um assassinato, mas há uma condenação. A exemplo de muitos de nós, seu protagonista é culpado de quererTudo aponta para o irredimível de uma tragédia sem catarse. Ao final, a sensação é de que todos nos afogamos sem que nos déssemos conta, ou quase.