Invenção do passado

Luz

A memória às vezes funciona como uma combinação de espelhos, e os reflexos que distinguimos aqui e ali nem sempre são confiáveis. Quase nunca o são, na verdade. O narrador e protagonista de Luz Antiga, Alexander Cleave, tem plena consciência disso. O romance de John Banville fecha uma trilogia cujos volumes precedentes, Eclipse e Shroud, ainda não foram lançados no Brasil. Embora isso não atrapalhe a fruição da história, alguns detalhes e piscadelas metalinguísticas restarão indecifráveis por quem não leu os anteriores. A editora promete publicar os outros dois livros, mas Luz Antiga é tão extraordinário que pode e deve ser lido agora, até porque depois, quando a trilogia estiver inteira à nossa disposição, será um prazer voltar a ele.

Autor premiado com o Man Booker Prize em 2005 com o também estupendo O Mar, Banville coloca seu estilo para trabalhar numa chave em que a ironia e a autoironia são algumas das poucas armas de que dispõe para dar conta da memória, descrita como uma senhora “dissimulada e sutil”. É muito fácil se perder nesse “labirinto cristalino” onde tempo e memória, “dupla nervosa de decoradores”, estão sempre “trocando a mobília de lugar, alterando a disposição e até a finalidade dos aposentos da casa”. Assim, o narrador coloca em dúvida desde o início a sua capacidade de resgatar o que quer que seja do “naufrágio gradual” que é a vida, ao mesmo tempo em que demonstra, pelo próprio desenrolar da narrativa, o quanto esse esforço é incontornável.

Cleave é um ator de teatro que abandonou os palcos após uma apresentação desastrosa, mas isso não chega a incomodá-lo. A dor maior diz respeito ao suicídio da filha, Cass. Uma década após a perda, ele é convidado a atuar num filme sobre um certo Axel Vander, um crítico literário obscuro e impostor que, por coincidência, estava por perto quando Cass se matou numa cidadezinha da Ligúria. Aqui se inscreve um dos pontos altos da autoironia de Banville: Vander é o protagonista do romance anterior da trilogia, Shroud. Em Luz Antiga, o livro no qual se baseia o filme em que Cleave atua se intitula A invenção do passado e foi escrito por alguém referido como JB. Em alguns momentos, Banville faz com que seu narrador se refira a esse livro de forma mordaz, incorporando o tipo de coisa que os raros detratores dizem a seu próprio respeito: “Retórico ao extremo, de uma elaboração teatral, totalmente sintético, artificial e atravancado (…)”.

É importante dizer que esse jogo não é, nem de longe, o que há de mais relevante no livro. Assim como Cleave não se fixa obsessivamente naquelas coincidências, de tal modo que a narrativa não chega sequer a constituir uma busca ou investigação relativa ao suicídio de Cass, Banville também está, digamos, preocupado com outras coisas.

O esforço de ambos, autor e personagem, é o de permitir que a memória tome forma, alguma forma, por menos confiável que seja, enquanto a vida se esboroa (ou a despeito desse esboroamento). Assim, mais importante do que quaisquer autorreferências, do que os percalços profissionais do narrador, do que Vander, é a maneira como Cleave recupera a história de seu primeiro amor: aos quinze anos, ele se envolveu com a mãe de seu melhor amigo, duas décadas mais velha, e manteve com ela um affair que se prolongou por alguns meses.

Nenhum outro evento tem, no romance, a potência desse caso amoroso, nem mesmo os ecos da perda de Cass. Ele toma boa parte da narração e, menos pelo seu suposto desfecho, anunciado desde as primeiras páginas, e mais por aquilo que, meio século depois, Cleave conseguirá resgatar e descobrir (o final guarda algumas surpresas), é que a extensão da memória se revela em toda a sua precariedade. Assim como o universo “contém uma massa perdida que não temos como ver nem medir”, conforme aponta um personagem a certa altura, também a memória resta em sua maior parte obscurecida, apesar da luz antiga que lançamos sobre ela ou que, inadvertidamente, ela deita sobre nós, vivos e mortos.