Deserto

Breaking Bad chegou ao fim ontem. Vi a série de uma só vez, no decorrer das últimas semanas, e fui anotando algumas coisas sobre os episódios de que gostei mais.

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“… And the bag’s in the river” [S01E03]. Vendo Walter White papear com Krazy 8 enquanto decide se mata ou não o sujeito: foi quando eu saquei estar diante de algo absolutamente invulgar. Não é só a extrema desaceleração, se compararmos com o episódio anterior, e a finíssima tessitura do diálogo, mas sobretudo o estabelecimento de padrões de comportamento que definirão os rumos do protagonista e, claro, da série.

“Peekaboo” [S02E06]. Na minha leitura, este episódio faz com e por Jesse Pinkman o que o citado acima faz com e por Walter White. É a história de uma cobrança. A presença de um garoto e o cuidado de Jesse para com ele ecoarão em sua relação com o pequeno Brock, tão importante para os desdobramentos finais da série.

“4 days out” [S02E09]. Um longo passeio no deserto.

“One minute” [S03E07]. Um passeio veloz no asfalto. Ou: em sendo a família o motivo alegado por White para fazer o que faz, torna-se evidente que a dúvida expressa por Michael Corleone à mãe em cena antológica do segundo Godfather (algo do tipo: ao fazer de tudo para a família, não corro o risco de perder a família?) inscreve-se também por aqui. Lembrei-me, também, do título de um filme menor de David Lynch: o fogo caminha comigo.

“Fly” [S03E10]. Dois homens e uma mosca num laboratório de metanfetamina. Harold Pinter manda lembranças.

“Half measures” / “Full measure” [S03E12/13]. Creio que as semelhanças entre os arcos narrativos de White e do caçula dos Corleone ainda estão por ser devidamente catalogadas, coisa que, aliás, só engrandece a série. A questão, aqui, também remete ao conteúdo implícito na conversa entre Michael e sua mama e, depois, com o irmão adotivo, Tom: até onde você pretende ir para, em tese, salvar a família? E, na medida em que a família vai ficando pelo caminho, até onde você pretende ir? E por quê? A resposta a isso só aparece no episódio final, e não poderia ser mais honesta.

“Hermanos” [S04E08]. Homens de negócio à beira de uma piscina. Alguém faz uma proposta, e o importante é que a resposta resume magnificamente do que é que se trata: são negócios, claro, mas do tipo que vai arrancar fora a sua melhor parte, ou metade. De novo, é a família ficando pelo caminho. Giancarlo Esposito, obrigado.

“Salud” [S04E10]. Homens de negócio outra vez à beira de uma piscina. São negócios, claro, e a imagem de uma casa subitamente repleta de cadáveres reitera o vazio que aumenta, metastático, ao redor dos poucos que ainda caminham.

“Face off” [S04E13]. Giancarlo Esposito sai caminhando do quarto. Antes, ele era dos poucos que ainda caminhavam. O vazio aumenta.

“Dead freight” [S05E05]. O grande roubo do trem. Em 1903, Edwin S. Porter dirigiu um filme com esse nome, The Great Train Robbery. Muitos o consideram o primeiro western. Uma gangue assaltando um trem. A certa altura, um dos bandidos atira contra a lente da câmera, contra o espectador. Scorsese homenageia isso na imagem final de Os Bons Companheiros, Joe Pesci atirando contra a lente, em nós. É uma referência marginal, claro (e em todos os sentidos). Mas a questão, sempre, é como tudo termina, e que tudo se dê , no deserto, onde um garoto para e acena.

“Gliding over all” [S05E08]. Walter White investe pesado noutra full measure.

“Ozymandias” [S05E14]. O deserto abraçando as pessoas. “The lone and level sands stretch far away”, diz o poema de Shelley que dá título ao episódio. Dois homens são enterradas no mesmo buraco onde, pouco antes, estavam barris cheios de dinheiro.

“Felina” [S05E16]. O desfecho possível e, enquanto tal, plenamente satisfatório. A chave está no diálogo entre White e sua esposa, um dos melhores de toda a série (juntamente com o travado entre White e Krazy 8). E, claro, na canção de Badfinger, Baby Blue (também utilizada por Scorsese em Os Infiltrados): “Guess I got what I deserved / Kept you waiting there / Too long my love / All that time without a word / Didn’t know you’d think, / That I’d forget / Or I’d regret / The special love I had for you / My baby blue”.