Passando por um rio de sangue

mozart

Vejamos. São dois momentos.

Três jovens tentam chegar a Sarajevo, em meio à guerra que solapou a até então Iugoslávia, a fim de encenar uma peça de Musset.

Um velho cineasta é tolhido pela estupidez dos produtores, pela incompetência dos atores e pela incompreensão do público, que, noutro momento, não perdoa nem mesmo Mozart: “notas demais”.

Em Para sempre Mozart, Jean-Luc Godard desenvolve um mínimo possível de notas, e nem sempre até o final. O filme me parece a narrativa (se tanto) de uma sequência de abortos narrativos.

Por exemplo, a esperança abortada dos jovens, intrínseca ao seu idealismo; essa esperança sorri negramente, exibe os dentes da própria morte. Eles não chegarão a Sarajevo. A morte é desespetacularizada, assim como a guerra. A única peça que encenam é a de seu próprio fim.

Godard já fora à guerra em Les carabiniers, um filme de guerra cuja estrutura parodiava e negava a dos filmes de guerra. Não que houvesse um desmonte do gênero, mas um passo atrás relativamente a ele. Era a precariedade do discurso sobre a violência, tornado prosaico (porque é mesmo desgraçadamente prosaico) até pelo que os dois fazendeiros-combatentes escreviam às esposas distantes, como: “Passamos por um rio de sangue. Um grande beijo”.

Para sempre Mozart, realizado mais de três décadas após Les carabiniers, trabalha num outro registro. O desconsolo para com o business cinematográfico é explícito na segunda metade. O filme dentro do filme, sim, parece ter notas demais. O produtor quer sempre mais. Olha para o mar e reclama, diz que é pouco. O investidor é dono de um cassino.

Observe como a atriz só consegue dizer um Sim quando foge da câmera do filme dentro do filme e encara a outra, de Godard. Ela só se faz presente ausentando-se.

E o cinema de Godard parece desde há muito movimentar-se pela via da ausência. Ele está fora do circuito, fora das formas narrativas tradicionais, fora do que o grosso do público espera que um filme seja. Para sempre Mozart olha noutra direção, e evita ser.

As melhores passagens dizem respeito à viagem abortada dos jovens. Eles são feito prisioneiros. São barbarizados. Cavam as próprias covas. O quadro não tenta contê-los, por um lado (vide a morte de Camille), e, por outro, sequer tenta enquadrar a violência.

Tal distanciamento nos convoca para um testemunho antinaturalista. O envolvimento emocional com a violência soa obsceno para Godard, até porque aquele rio de sangue nunca deixou de correr. A diferença é que, hoje, salvo raras exceções, não escrevemos mais cartas. Não, nem mesmo isso.