Apichatpong

Acho que o cinema de Apichatpong Weerasethakul é, por assim dizer, intuitivo. Seus filmes, pelo menos os que vi até aqui, são água corrente. Eles simplesmente vão, e não há nada neles que se assemelhe à forma narrativa clássica (o que, em si, não é necessariamente bom ou ruim, diga-se). E, no entanto, a fluência de filmes como Mal dos Trópicos é inegável.

É um estilo de filmar, digamos, líquido, ou mesmo liquefeito, cujas imagens não procuram impor absolutamente nada. Ao que parece, e a exemplo do que vejo sempre que olho através de uma janela, elas simplesmente estão ali. Claro que não é tão simples quando pensamos nos termos de sua construção, mas “Joe” é o tipo de cineasta que praticamente me obriga a me ater aos efeitos que provoca.

“Mal dos Trópicos” começa com uma história de amor para se transformar em uma espécie de fábula sobrenatural. Assim, deixamos os intestinos de uma relação amorosa para, na segunda metade do filme, sermos literalmente atirados na floresta. O clima místico, apenas ensaiado no começo (a visita a uma caverna), irrompe de vez no, digamos, “momento dois” do filme.

Muito embora o meu olhar (domesticado? urbanóide? limitado?) se sinta mais confortável na primeira metade, preciso dizer que nem mesmo o ostensivo misticismo da outra parte conseguiu me afastar. Sim, porque eu tinha medo de algo assim acontecesse. Ali, se o tom, vá lá, metafísico (essa coisa tão ocidental) é evidente, também o é a palpabilidade da floresta que nos envolve a todos, personagens e espectadores. O embate entre os dois seres, o soldado e o outro, é ao mesmo tempo físico e transcendente.

Talvez porque até mesmo a carnalidade é transcendente (e vice-versa) no cinema de Weerasethakul. Quando, por exemplo, ainda na primeira parte, um personagem lambe os dedos do outro, o estado de suspensão em que eu me encontrava não foi quebrado. Eu imediatamente me lembrei de uma cena de “Síndromes e um Século”, na qual um homem e uma mulher se beijam, ele tem uma ereção e eles riem disso feito duas crianças (e nós com eles).

São momentos assim, de uma singeleza quase insuportável e perfeitamente reconhecível, que tornam esses filmes algo que estranhamente diz respeito às memórias de todos nós. É como se tivéssemos vivido ou estivéssemos por viver todas essas mínimas coisas. Nesse sentido, e em vários outros, “Mal dos Trópicos” também é uma belíssima história de fantasmas.

[27.09.2010]

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Acho meio assustador que Apichatpong Weerasethakul (Joe, para os íntimos) tenha míseros quarenta anos de idade. A experiência de ver um filme como Síndromes e um século diz respeito à memória de umas tantas vidas, tenham elas acontecido ou não. Em geral, a impressão é de que elas estejam acontecendo ali, diante de nós, naquele exato instante em que as presenciamos, numa espécie de concomitância absoluta, contingenciada.

Isso me parece evidente desde a própria estrutura do longa, onde a segunda metade reconta, transforma e, de certa forma, coloca em crise a primeira. É a mesma história e, de repente, não, é outra coisa, são outras coisas, e o filme como que assume a forma de um enorme rio e seus afluentes.

As possibilidades são inúmeras. Há mudanças mínimas (uma palavra, um gesto), mudanças evidentes (a paisagem campestre da primeira parte dá lugar a uma grande cidade na segunda) e mudanças violentas (observe como a relação entre o dentista e o paciente muda de uma parte para a outra do filme).

Confesso ter sentido saudades do começo do filme quando cheguei ao seu terço final. Não é que eu ache o início melhor do que o fim, nada disso. De certa forma, dada a assepsia do ambiente em que a(s) narrativa(s) transcorre(m) a partir de certa altura, a nostalgia do bucolismo e do calor humano que transbordam no início me parece inevitável. Se, a princípio, é como se víssemos a natureza não de perto, mas de dentro (observamos um eclipse como se fôssemos a própria terra), depois tudo se distancia e parece prestes a desaparecer bem diante dos nossos olhos.

No entanto, mesmo quando a assepsia passa a dar o tom, mesmo quando o personagem do dentista, por exemplo, não mais fala e canta e brinca com seu paciente, ainda temos (eu tive, pelo menos) a nítida sensação de estar ali, com aqueles personagens. Por exemplo: o beijo de um casal de namorados, a ereção resultante disso e o modo como eles riem infantilmente (no bom sentido) do indisfarçável volume dentro das calças dele.

“Síndromes e um século” é repleto de momentos que parecem ter vida própria, acontecer para além do filme e, não raro, da nossa percepção imediata. Essa fantasmagoria do bem transparece clara e lindamente na única cena idílica da segunda parte do filme: uma aeróbica ao ar livre na qual cada figura dançante parece descolar da tela e exigir a nossa atenção imediata. Estão todos vivos, e nós também.

[28.08.2010]

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Para um pretenso agnóstico como eu, passar por algo parecido com uma experiência religiosa é coisa digna de nota. O filme de Apichatpong Weerasethakul Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas é um desses objetos misteriosos que não se permitem apreender de imediato, experiência-limite na medida em que parece nos levar para fora do corpo. Há quem veja a luz.

É realmente muito difícil (para mim) colocar em palavras o que passou pela minha cabeça no decorrer da viagem empreendida pelo filme. Então, prefiro tergiversar um pouco.

Conforme o título já entrega, tio Boonmee é um sujeito que consegue se lembrar de suas vidas passadas. Em uma cena linda, ele, sua cunhada e o filho dela, sentados à mesa para o jantar, recebem a visita de gente morta: a esposa e o filho de Boonmee, este uma figura meio assustadora, espécie de macaco de olhos vermelhos e tristeza do tamanho do além. A passagem é de uma simplicidade aterradora. O que Apichatpong parece estar propondo é mesmo uma ideia de transcendência que tem lugar aqui, em nossa precária imanência.

Assim, não é por acaso que um filme enamorado da morte e do além seja tão centrado nos sentidos e na carnalidade. Uma princesa mergulha em um córrego para se entregar a um bagre. Tio Boonmee oferece à cunhada um pouco de mel. Não há indiferenciação entre passagens tão díspares. São dados de uma mesma experiência que, às vezes intangível, às vezes tangível, é perfeitamente compartilhável.

Uma possível ideia subjacente é aquela segundo a qual nós estamos em todas as coisas vivas ao redor. Assim, pessoas, floresta e animais são abordados mediante um trabalho de imagem e som que reitera a existência (presença?) de um algo maior, ao mesmo tempo interno e externo à realidade imediata.

Quando, por exemplo, o filho de Boonmee reaparece com seus olhos vermelhos e forma simiesca, a banda sonora sugere estarmos em uma zona fronteiriça, entre dois mundos ou duas realidades, num limiar. A sensação de estranheza causada por isso é magnífica: pela primeira vez, um cineasta comunicou a mim, por meio de uma técnica cinematográfica ímpar, mais do que uma crença, um sentimento em relação à morte e a um outro mundo, independentemente de eu crer na existência dele ou não.

[07.02.2011]