Só Deus sabe o que seria deles sozinhos.

Este é um post animado pela revisão, uns dez anos desde a última vez, de Boogie Nights. E também porque Paul Thomas Anderson está prestes a lançar filme novo, The Master, sexto de uma carreira estonteante.

Se você, como eu, teve o prazer de esbarrar em seu primeiro longa, Jogada de Risco, em nada menos do que três insones madrugadas televisivas, se pôde conferir o irrepreensível e inusitado cruzamento entre Robert Altman e Martin Scorsese que é Boogie Nights (seu melhor filme), se se deixou levar pelos excessos do ainda mais altmaniano Magnólia, se abraçou e se deixou abraçar pelo caloroso Embriagado de Amor e se, por fim, mergulhou naquela caverna escura que é Sangue Negro (seu outro melhor filme), então sabe o que eu quero dizer quando uso o adjetivo “estonteante”.

Boogie Nights continua perfeito. E, de fato, nele enxergo tanto Altman quanto Scorsese, reprocessados por um desses animais movidos a cinefilia que volta e meia assombram as nossas retinas, sendo que o próprio diretor de Caminhos Perigosos é um caso desses (talvez o mais grave, o mais feliz). Quentin Tarantino também, claro, mas noutra galáxia; mais do que reprocessar, ele às vezes encarna Pierre Menard e revive o troço, seja lá o que for, Leone, De Palma. Anderson e Scorsese são menos ostensivos em suas citações e homenagens. Antes modernos que, vá lá, pós-modernos.

Em Boogie Nights, Anderson coloca de pé uma história familiar do jeito que Freud gosta, mas num ambiente dos mais inusitados: San Fernando Valley, seio turbinado da indústria pornô, entre a segunda metade dos anos setenta e os primeiros anos da década seguinte, quando o vídeo e a cocaína caíram sobre aquela gente feito pragas divinas.

Temos, assim, um “filho”, Eddie Adams, depois Dirk Diggler (Mark Wahlberg), abençoado com um dom — um pênis de trinta centímetros –, e os “pais” que o acolhem tão logo ele abandona sua família biológica: Jack Horner (Burt Reynolds), sujeito que quer fazer mais do que meros filmes pornôs, mas criar histórias tão boas que a galera continue interessada pelo que acontece na tela mesmo quando não estiver rolando cenas de sexo; e Amber Waves (Julianne Moore), estrela-mor da companhia, figura maternal que, dadas as suas atividades profissionais, logo perderá o direito de ver seu filho biológico (uma ausência, um buraco negro a sugá-la, um vazio implorando para ser preenchido).

Outras figuras circulam por ali, e haverá tempo para nos tornarmos íntimos de todas elas. Como em toda boa família, e levando-se em conta o meio em questão, a carga incestuosa é escancarada e explosiva. Daí que sempre fico impressionado com o olhar compassivo e muitas vezes terno com que Anderson encara essas criaturas em seus melhores e, sobretudo, piores momentos, sejam eles apenas patéticos ou abertamente trágicos.

De antemão, e para que o filme seja viável, ele se exime de julgá-los. Em seguida, mergulhando em seu cotidiano e nos aproximando deles o máximo possível, torna-os tão próximos de nós quanto o pessoal da mercearia da esquina. Mais do que uma proeza, é um atestado de genialidade. Não sei de muitos roteiristas e diretores capazes disso. Altman, por certo, é um exemplo, e Anderson retira dele as manhas para erigir uma estrutura fragmentada, povoada por muitas pessoas em numerosas situações, e manter o interesse aceso por cada fiapo de história a se desenrolar em todas as direções.

De Scorsese, é a inteligência sonora e visual, a maneira como consegue traduzir formalmente o estado de espírito dos personagens pela movimentação (ou não) da câmera, pelo uso (ou não) da música, pela montagem, pelo ritmo, em suma, pela mise-en-scène que não só desvela e comenta, mas, sobretudo, confere sentido ao todo. O filme às vezes respira, às vezes não, e nós com ele.

Tome-se como exemplo o evidente tributo ao terço final de Os Bons Companheiros na derrocada, também movida a cocaína e paranoia, com que Anderson “premia” Diggler. Para além do pleno domínio técnico, está (em ambos os casos) uma compreensão intestina do que seja aquela descida aos infernos, a expiação e, por fim (no caso de Boogie Nights), o doloroso renascimento no seio daquela família tão disfuncional e, por isso mesmo, sim, tão comum.

Ao final, passeamos pelo lar não só reconstruído, mas também apaziguado, com a família reunida, tinindo para o recomeço possível. Tal reunião é coerente com a própria estrutura do filme, plural, polifônica. Só Deus sabe o que seria deles sozinhos.

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