Sobre um afogamento.

A Época da Inocência foi lançado em 1993. Dentre os filmes de Martin Scorsese, é certamente um dos menos vistos e, a meu ver, o mais subestimado.

Adaptação do romance homônimo de Edith Wharton lançado em 1920 e agraciado com o Pulitzer no ano seguinte, o filme se passa em meados da década de 1870 e versa sobre a alta sociedade novaiorquina e seu “mundo hieroglífico, onde a verdade jamais era dita ou praticada ou mesmo pensada, mas apenas representada por um conjunto de signos arbitrários”.

Conforme disse Scorsese à época do lançamento, trata-se de um mundo com regras tão estreitas e rígidas quanto o dos mafiosos: quem não cumpri-las à risca, corre o risco de ser eliminado — óbvio que não fisicamente, como é o caso entre os gangsteres, mas socialmente. Logo, sob certos aspectos e ao contrário do que muitos disseram, o filme está tão próximo da sensibilidade do diretor quanto Os Bons Companheiros.

Vi A Época da Inocência tão logo o lançaram em VHS, creio que em meados de 1994. Ainda não seria o primeiro Scorsese a que eu assistiria no cinema: “estrearia” com o igualmente estupendo — e subestimado — Cassino.

Logo de cara, fiquei embasbacado com a sequência de créditos concebida pelo veterano Saul Bass, em sua terceira parceria com o diretor (lembremos dos créditos cocainômanos de Os Bons Companheiros, da abertura tempestuosa de Cabo do Medo e, depois, da explosão de neon e chamas de Cassino). Bass resume o espírito do livro com uma sucessão de flores que parecem artificiais, vistas através de véus e tecidos, desabrochando. É a Nova York de Wharton, em que “toda essa sinceridade e inocência eram um mero produto artificial”.

É impossível, sobretudo para quem leu o romance, negar a extrema competência com que Scorsese e Jay Cocks o adaptaram. Existe a ideia, disseminada em aulas mambembes de adaptação literária para o cinema, de que o uso de certos recursos, como o da narração em off, é desaconselhável. Por sorte, os grandes realizadores não estão preocupados com “regras” de qualquer tipo: recorrendo à voz de Joanne Woodward, Scorsese costura a narrativa com trechos do texto original de Wharton. Após a cena inicial na ópera, temos o baile na casa dos Beaufort e, enquanto a câmera de Michael Ballhaus passeia pelo ambiente com a desenvoltura habitual, recebemos informações pontuais sobre quem são aquelas pessoas e como funciona aquele ambiente. Tais informações, ressalte-se, apenas reforçam o que já foi mostrado na sequência anterior.

Logo, as informações principais não são ditas, mas mostradas. Desde o começo, quando a câmera acompanha entrecortadamente o olhar da “consciência moral” daquele meio, Lefferts (Richard E. Grant), que varre o ambiente com seus binóculos até se fixar na “ousadia” que tem lugar no camarote defronte ao seu, até o uso brilhante da íris para momentaneamente recortar os personagens principais, Archer e Ellen (Daniel Day-Lewis e Michelle Pfeiffer, respectivamente), daquele ambiente opressivo, Scorsese pinta e borda com sua montadora Thelma Schoonmaker para não só reconstituir, mas sobretudo comentar a aspereza mal disfarçada daquele universo tribal.

O filme, de resto irrepreensível, cresce ainda mais no terço final. Uma vez situados ali, podemos observar com liberdade a violência sutilíssima de que o corpo social se vale para sufocar de uma vez por todas o amor “inadequado” entre Archer e Ellen.

A sequência do jantar, que antecede o golpe de misericórdia no protagonista e o epílogo parisiense, é de uma brutalidade subterrânea desesperadora. E, o que é mais importante, vemos isso tanto por meio dos recursos utilizados por Scorsese (os fades e fusões, as trucagens com a luz, a edição de som) quanto pelas atuações de Pfeiffer e especialmente Day-Lewis — os olhos dele são os de alguém que se afoga.

E A Época da Inocência, seja o livro, seja o filme, pode ser descrito assim : a narrativa de um lento, inexorável afogamento.

.