Sobre ‘Prometheus’.

Não tinha planejado escrever sobre Prometheus, mas a visão desse cartaz aí, coisa mais linda, e a revisão do filme ontem me deram vontade de fazê-lo.

É bem verdade que Ridley Scott teve um início de carreira dos mais auspiciosos, engatando três belos filmes em sequência: Os Duelistas, Alien e Blade Runner. Depois, sabe-se lá por quê, construiu uma filmografia irregular, em que uns poucos filmes razoáveis, se tanto (Thelma & Louise, O Gangster, Robin Hood), convivem com nulidades (1492, Gladiador, Os Vigaristas) e com objetos intoleravelmente ruins (A Lenda, Até o Limite da Honra).

Alien e Blade Runner (este em qualquer um dos vários cortes disponíveis) não são apenas os trabalhos mais brilhantes do diretor, mas, na minha opinião, dois dos melhores filmes já realizados. São únicos na maneira como foram concebidos e realizados,  paradigmáticos, seminais, assombrosos. Acho que é a esse tipo de coisa que se refere a expressão obra-prima.

Alien conjuga ficção-científica, suspense e terror como quem tem uma coisinha ou duas a acrescentar a cada um desses gêneros. Além disso, pela sua própria estatura, implode a ideia, de resto imbecil, de “subgênero” enquanto forma de diminuir ou menosprezar um produto. Uma das coisas mais apaixonantes em cinema, para mim, é o fato de que se pode realizar grandes filmes em qualquer gênero. Hitchcock foi um dos primeiros a comprovar isso, erigindo monumentos com materiais que outros julgariam “ruins”. Steven Spielberg foi pelo mesmo caminho em Tubarão. E, claro, Scott.

Tanto Tubarão quanto Alien devem muito à gramática hitchcockiana. Ambos constroem situações desesperadoras e extremamente cinemáticas a partir de coisas que, na maior parte do tempo, sequer são mostradas, mas apenas sugeridas. Parece bobagem, mas, no fim das contas, é a própria razão de ser do cinema: o momento em que o conteúdo não é ressaltado, mas, sim, criado pela forma. É o que François Truffaut diz sobre Hitchcock, que ele não era um contador de histórias ou um esteta, mas um inventor de formas, um dos maiores da história do cinema.

Por mais que eu respeite cineastas ancorados na palavra, como Ingmar Bergman ou Andrei Tarkovski, a verdade é que, a cada dia, eu me interesso mais por esses inventores de formas, artistas comprometidos em explorar o cinema pelo cinema e não em função do teatro ou da literatura. Hoje, interesso-me cada vez menos por filmes como PersonaNostalgia, e, exceção feita a Woody Allen e similares, o que é efetivamente dito na tela mal chega aos meus ouvidos.

Talvez por isso, alguns dos melhores filmes a que assisti nos cinemas neste primeiro semestre sejam trabalhos orientados para os olhos, não para os ouvidos. Cinema é superfície, sempre foi. Drive, O Espião que Sabia Demais e Prometheus (este inferior aos dois anteriores, mas um belo filme, por certo) valem pela relação que estabelecem com as tradições cinematográficas e, sobretudo, cinefílicas em que estão inseridos. São, em maior ou menor grau, filmes sobre filmes, mas que, justamente por isso, por vivermos num mundo erigido sobre imagens de imagens de imagens, têm (especialmente Drive) muito a mostrar sobre o atual estado de nossa miséria.

Prometheus, está certo, não é um monstro fílmico irretocável como Alien, do qual é um prequel. Mas, seja pelas elipses inteligentes e quase imperceptíveis, as quais, inclusive, fazem dele um belo filme de duas horas em vez de um aborrecimento de duas horas e meia, seja pelo cuidado com que Scott passeia por questões metafísicas sem degenerar em discurseiras e filosofadas (nada é vomitado da tela, o espectador pensa a respeito se quiser e com a bagagem que tiver), seja, sobretudo, pela forma, pela competentíssima construção não do suspense — embora ele também esteja lá –, mas da solidão e da angústia, ele é, sim, um trabalho invulgar.

O que mais chamou a minha atenção em Prometheus é o fato de Scott se afastar do terror puro e simples (monstros perseguindo pessoas) e adentrar um outro tipo de espaço, um lugar, por assim dizer, existencial. Aqui e ali, no decorrer do filme, duas visões básicas são contrapostas: há quem acredita, há quem não acredita (em Deus, num Propósito, numa Força Superior, numa Inteligência Suprema, num Princípio Ordenador). E, claro, quem não acredita, considera tudo um acaso absurdo e que nós, eu, você e todo mundo, estamos sozinhos, no fim das contas.

A protagonista é uma crente, uma cientista que cruza o espaço com um crucifixo pendurado no pescoço. Um believer, por definição, nunca está só. Assim, à medida que seus companheiros de viagem vão tombando, é irônico que a personagem em questão caminhe justamente para a solidão extrema.

Scott trilha um caminho sem volta rumo ao vazio. “Não há nada”, diz alguém logo após um desagradável encontro com um de seus criadores. A crente segue acreditando e, mais do que isso, faz questão de levantar voo e embarcar noutra viagem. Talvez por isso: mesmo que não haja nada, por que parar? Na pior das hipóteses, há a viagem — coisa que, para mim (mas não para ela, frise-se), já é tudo.

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