11 livros da minha vida.

Há outros, claro. Mas, agora, ocorreram-me esses aí. Eles são lugares nos quais me senti bem, e estar em cada um deles fez de mim o que eu sou.

V., de Thomas Pynchon.
É o primeiro romance dele, que depois escreveu coisas bem mais extensas, complexas e, a rigor, até melhores, como “O Arco-Íris da Gravidade”, “Mason & Dixon”, “Contra o Dia”. Mas é com “V.” que eu tenho uma relação mais próxima. Óbvio que não sei explicar o motivo. Talvez pela insana história do parafuso no umbigo (toda a ausência de sentido da vida exposta por meio de um chiste), talvez pelas referências ao genocídio dos namas e hereros pelos alemães, talvez pela extrema identificação que sinto para com o schlemihl Benny Profane e também para com a freira ciborgue desmontada pela turba.

Badenheim 1939, de Aharon Appelfeld.
Acho que nenhum outro romance sugere com tamanhas força e, ao mesmo tempo, contenção a violência sem precedentes do Holocausto. E, frise-se, é uma narrativa que se passa antes da Solução Final, num vilarejo austríaco, quando as primeiras leis nazistas de segregação dos judeus começavam a ser implantadas. Termina numa estação de trem, com as pessoas, sem saber o que acontecia e, sobretudo, o que estava prestes a acontecer, prestes a ser evacuadas para a Polônia. É a antessala do inferno. Em Appelfeld, terrível é o que não vemos.

Seu Rosto Amanhã, de Javier Marías.
Li os três volumes de “Seu Rosto Amanhã”, salvo engano, em algum momento do segundo semestre de 2010. Ainda hoje, ouço (e a palavra é essa mesmo, ouço) a voz do pai do narrador discorrendo sobre os horrores da Guerra Civil Espanhola, alguém que foi literalmente toureado, um bebê atirado contra uma parede, coisas do tipo. Se a literatura tem uma “função”, é a de demonstrar o quanto a linguagem é incapaz de dar conta dos extremos da nossa horrenda humanidade. Com sua prosa sinuosa, Marías não se cansa de congelar o tempo e incorrer em digressões enormes, e de repente é como se sonhássemos o livro, hipnotizados. Mais do que congelar o tempo, ele o presentifica por inteiro e simultaneamente. Tudo acontece ao mesmo tempo, e a mobilidade resta ilusória. Parmênides teria adorado.

Os Emigrantes, de W. G. Sebald.
Aqui, outro autor com uma noção muito particular do tempo e da História. Nesse sentido, é um parente de Marías. A diferença é que, em Sebald, a solidão é irredimível. Não há nada além do narrador anônimo que, em suas deambulações, é exposto ao turbilhão de desgraças como o anjo de uma das teses sobre a História de Walter Benjamin. Sebald, tal e qual Marías, atira o leitor nesse “tempo saturado de ‘agoras'”. Flutuamos pelos escombros da Europa, ouvimos vozes, vemos fotografias antigas. O mundo acabou. Estamos sozinhos.

Anna Kariênina, de Liev Tolstói.
Tolstói abraça a Rússia e se deixa abraçar por ela. A mulher vaticina que não escaparemos de nós mesmos e depois se joga debaixo de um trem. Com isso, mais do que resumir o século que encerra, ela prefigura o seguinte. É uma sombra grande e terrível demais. Um pressentimento, um aviso. No miolo, aquilo que Ian McEwan chamou certa vez de o romance perfeito. Quem duvidar que leia a narração da morte de Nikolai, todo o capítulo XX da parte 5. Tolstói nos ensina a viver e a deixar morrer.

Submundo, de Don DeLillo.
Por falar no triunfo da morte, o painel bruegeliano de parte da história norte-americana no século XX perpetrado por DeLillo em “Submundo” é outro belíssimo salto no vazio. Ele confirma e radicaliza o que Kariênina vaticinou. Setecentas páginas que reiteram a gratuidade de tudo, a solidão esmagadora com que nós, míseras bolas de beisebol, viajamos pelo tempo até desaparecermos. Lindo, lindo.

Pastoral Americana, de Philip Roth.
O sadismo com que Roth cria um personagem apolíneo e depois esmigalha cada aspecto de sua vida é coisa de altíssimo nível literário. Ok, não se trata de sadismo, mas de uma consciência siderada dos rumos de seu país da metade do século XX em diante. Depois do soterramento do pobre Sueco, o que mais poderia acontecer? Roth não sabia, é claro, mas talvez pressentisse a primeira década do século XXI.

Ulysses, de James Joyce.
Exercício inigualável de “romance total”, se me permitem usar a imagem pela enésima vez, “Ulysses” dispõe toda a tradição sobre uma mesa enorme e nos convida ao banquete. No processo, amontoa epifanias num canto do prato, trespassa-as com o garfo e as oferece à nossa boca. É comer até se fartar, dar um tempo, e comer mais, sempre mais. O alimento nunca se esgota, melhor a cada vez que retornamos à mesa. O alimento é a própria linguagem.

Moby Dick, de Herman Melville.
Ishmael primeiro some dentro do Pequod, a Grande Nau Norte-Americana: mestiça, uma colcha de retalhos humanos, metida em uma caçada mortífera, impossível. Depois, sob Ahab, o capitão monomaníaco, incendiado. Some para, ao final, emergir apesar de Moby Dick, que não deixa destroços, que não deixa praticamente nada, ou que deixa apenas um caixão, o caixão de Queequeg transformado em boia de salvamento, e Ishmael flutuando com ele, a despeito de tubarões e falcões, até ser resgatado pelo Rachel. Rachel, o navio à procura de seus órfãos que terminará por resgatar outro órfão: ele próprio, Ishmael. Mas, órfão de quem? De Ahab? Da Baleia Branca? De ambos, talvez. Ishmael, o órfão que leva consigo e traz para nós uma parte vigorosa do inferno.

Madona dos Páramos, de Ricardo Guilherme Dicke.
Ao inferno também nos leva o mato-grossense Dicke com esse romance abissal, violentíssimo, um olhar inédito e brutalista sobre o sertão. O sertão engolfa tudo, parece ser o próprio fundamento do país, o sal da terra, por assim dizer. Não o sertão cósmico roseano, mas outro, terreno, carnal, sanguíneo, obsceno, sempre prestes a implodir. É o nosso Faulkner.

Os Demônios, de Fiódor Dostoiébski.
O romance evolui aos trancos, levado por um narrador-personagem envolvido em boa parte dos acontecimentos. Ele reflete a crescente estupefação do leitor. A turbulência, o horror e a brutalidade não tardam. O choque é tão maior porque o começo do livro é engraçado. As intrigas iniciais, ainda que mal disfarçando um desencanto terminal, desenrolam-se celeremente. O contexto histórico é explosivo, mas as idiossincrasias dos personagens a princípio nos distanciam do caos. Quando menos esperamos, contudo, a coisa desaba. Ademais, temos a assustadora atualidade do romance. Os fanáticos e terroristas que povoam suas páginas são os fanáticos e terroristas que povoam o mundo contemporâneo. Dostoiévski, ao pretender escrever um romance panfletário, dissecou a alma esvaziada, os discursos entorpecentes e as ações aterradoras dessa gente. Aqueles demônios são, em essência, os mesmos de hoje.