"A brighter day / When all the shadows / Will fade away"


Drive
[Nicolas Winding Refn, 2011]

Eis um dos melhores filmes a que assisti em 2011, investida cinefílica furiosa do dinamarquês Refn com ares de um certo cinemão norte-americano dos anos setenta e oitenta do século passado. “Drive” é inteirinho escorado em sua ininterrupta trilha synthpop, que comenta e fornece clima ao que é mostrado. Funciona mais ou menos assim: você foi a uma festa retrô, bebeu muito, deu e levou umas cadeiradas, voltou para casa, dormiu e teve um sonho dos mais loucos. O sonho que você teve é “Drive”.

Ryan Gosling encarna um tipo caríssimo ao cinema-com-culhões, the strong, silent type de que Tony Soprano dizia sentir saudades em suas sessões de análise. Talvez nem carecesse dizer, mas a performance dele, das mais eficientes, é de um minimalismo macho que remete a esses tipos soturnos (mas de bom coração) do cinema de anteontem. Steve McQueen passou por aqui e deixou um abraço.

Exímio motorista, Gosling ganha uns trocados como dublê capotando carros em filmes de Hollywood, fatura algum como mecânico e, presumo, ganha bem mais dirigindo para assaltantes pelas ruas de Los Angeles com extrema perícia e sem (muita) correria, conforme nos mostra a impressionante sequência de abertura (que, sozinha, já justificaria o prêmio de Melhor Direção que Refn ganhou maio passado, em Cannes). Ele se envolverá com a vizinha, cujo marido não tardará a sair da prisão e se meter (e ao protagonista) em uma enrascada daquelas.

Como se compusesse imagens para comentar a trilha (e não o contrário), Refn entrega um filme meio lento, quase contemplativo aqui e ali, de tal forma que a violência, quando irrompe, é competentemente desacelerada. Poucas vezes, por exemplo, um beijo trocado por um casal dentro de um elevador me pareceu tão carregado pela brutalidade que virá a seguir. Na verdade, o beijo, ali, é quase um chiste, ou um riso irônico trevoso que prenuncia o embate entre dois homens, um dos quais chegará ao térreo com a cabeça esmigalhada a pontapés.

E, ainda que este seja um filme enamorado daquele cinema pretérito, impressiona como Refn escapa pontualmente à tentação de transformar “Drive” em um mero objeto retrô-estiloso e pretensamente cool. Dizendo de outra forma, ele não procura simplesmente citar e reprocessar as possíveis influências. Há uma textura e um ritmo, aqui, dolorosamente contemporâneos, que, por mais que remetam a tais e tais coisas, dizem muito sobre a era glacial em que vivemos.

P.S.: Se possível, veja “Drive” em sessão tripla com o australiano “Reino Animal”, de David Michôd, e o norte-americano “Inverno da Alma“, de Debra Granik, filmes estupendos a que também assisti em 2011 e que abordam lindamente questões acerca desse buraco em que nos enfiamos todos (ou em que sempre estivemos enfiados). Afinal de contas, o mundo é um lugar maravilhoso.