Concerto para quatro vozes e alguma memória.


texto de ANDRÉ DE LEONES
dirigido por CRISTINA MOURA
no Centro Cultural Banco do Brasil, Brasília
de 11 a 15 de maio
às 19hs (quarta a sábado) e às 18hs (domingo)

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[TRECHO]

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FABIANA
– Eu fiquei surpresa por ter ligado.

HENRIQUE
– Eu pensei que não fosse mais falar comigo.

FABIANA
– Eu pensei que não fosse mais falar com você.

HENRIQUE
– Mas… eu não te fiz nada, Fabiana.

FABIANA
– Sim. É verdade, Henrique. Você não me fez nada.

HENRIQUE
– Você sumiu depois daquilo tudo e eu…

FABIANA
(Interrompendo) – Eu sei. Eu sei. (Pausa.) Eu fiquei pensando aqui. (Pausa.) Eu pensei muito, durante muito tempo. (Pausa.) Tudo o que eu fiz foi pensar e pensar e pensar. (Pausa.) Nunca alguém pensou tanto e durante tanto tempo quanto eu. Sobre tudo. Sobre todas as coisas que eu não consigo lembrar e sobre todas as coisas que eu preferiria esquecer. Você deve estar pensando que é impossível eu pensar sobre as coisas que não consigo lembrar porque afinal de contas eu não me lembro delas. Mas não é verdade. É possível pensar sobre o que eu não consigo lembrar. Porque o que eu fiz foi pensar nesse intervalo, entende? Nesse espaço em branco. Não. Espaço em negro. Um enorme quarto vazio que eu não consigo preencher com mais nada. Mobiliar. Remobiliar. A doença jogou todos os móveis pela janela e agora eu. Eu não consigo remobiliar e também não consigo me livrar desse quarto vazio. Tenho que viver com ele. Tenho que viver sabendo dele. Tenho que viver nele. (Pausa.) Eu fiquei pensando, eu. (Pausa. Respira fundo.) Eu fiquei pensando que talvez pudesse mudar aquela frase do livro. Aquela frase que eu citei agora há pouco.

HENRIQUE
– “A alma é a parte mais cansativa do corpo”.

FABIANA sorri.

FABIANA
– Você sempre teve uma memória muito, muito boa.

HENRIQUE
– E isso quase sempre é um problema.

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