VEM AÍ UMA TEMPESTADE “Moby Dick”, de Herman Melville. Ali pela página 100, a primeira vez que o narrador, Ishmael, adentra o Pequod (ainda estamos em terra firme) e ouve um dos donos da embarcação falar sobre o capitão Ahab. É o capitão Peleg quem fala, e um tanto confusamente. Ahab é assim, mas também é assado. Perdeu uma perna, tem uma esposa jovem e meiga, está meio doente, não quer ver ninguém, é um bom capitão, é um homem estranho, é isso, aquilo e mais aquilo outro, e nada disso e tudo isso junto. Ou seja: quase tanto quanto a baleia, Ahab é inapreensível. Um pouco antes, Peleg questiona Ishmael: por que você quer embarcar em uma baleeira? Ishmael diz que quer ver o mundo. Peleg, então, diz a Ishmael que vá até a proa, olhe adiante e depois conte o que viu. Ishmael hesita, mas acaba fazendo o que ele pede. E o que ele vê? “Nada além de água; um horizonte considerável, e parece-me que aí vem uma tempestade.” Peleg retruca: “Não vês o mundo de onde estás?”. Ele sabe, e Ishmael também, que não se trata disso. Que, não importa onde estejamos, vem sempre uma tempestade. Logo, que diferença faz? Ao mar, portanto. Ao mar.