Algumas notas sobre "A Fita Branca"

1. O ano de 2009 trouxe algumas coisas bem assustadoras, dois ou três apocalipses em celuloide que, imagino, tendem a crescer com o passar dos anos.

2. Quando uso o termo “apocalipse”, não estou me referindo a boçalidades como “2012”, obviamente.

3. Não sei ao certo, mas acho que “Anticristo”, de Lars von Trier, e o premiado em Cannes “A Fita Branca”, de Michael Haneke, por mais díspares que sejam, trazem em si um certo tom apocalíptico, algo como um alarme soando insistentemente em algum lugar.

4. Como diria Godard (em “Nossa Música”), “o estado de nossa miséria é preciso”. Quando penso em “miséria” e “precisão”, o cinema de Haneke instantaneamente me vem à cabeça.

5. “A Fita Branca” é, dentre outras coisas, um filme sobre a natureza do mal (com inicial minúscula, por favor).

6. Não é difícil perceber como o martelar de ideias absolutas, sejam elas de cunho religioso, político ou o que for, redunda mais cedo ou mais tarde em alguma espécie de violência.

7. Na medida em que se passa na Alemanha pré-Primeira Guerra Mundial, é lícito entender “A Fita Branca”, especificamente, como um filme sobre o ovo da serpente fascista que devoraria aquele país e quase que o mundo inteiro não muito tempo depois. Restringi-lo a isso, contudo, não me parece muito inteligente, conforme, aliás, o próprio diretor fez questão de frisar. Dizendo de outra maneira: trata-se de um filme, no meu entender, atualíssimo, capaz de oferecer uma leitura de mundo que diz muito dos estados presente e futuro (e não apenas pretérito) de nossa miséria.

8. Com aquele rigor que parece saído de outro mundo (só consigo pensar em Kubrick, outro monstro do distanciamento), Haneke me parece mais contido do que em filmes abertamente terríveis como “Violência Gratuita” e “A Professora de Piano”. Aqui, ele exercita mais do que nunca a sugestão, de tal maneira que o choque acontece não durante a projeção (ainda que o filme tenha lá os seus momentos), mas sobretudo depois.

9. Enquanto assistia ao filme, duas obras de arte vieram à minha cabeça por várias vezes: o livro “Os Emigrantes” (sobretudo as narrativas “Paul Bereyter” e “Max Ferber”), de W. G. Sebald; e o filme “Luz de Inverno”, de Ingmar Bergman. Mas não me sinto capacitado para comentar a respeito.